sábado, 28 de janeiro de 2017

Fotografia


Estava disposta:
Os dedos vagarosos repousados no sangue como se pudesse fecundá-los, a cabeça no mar a procurar estrelas, o sal queimando as mágoas que trazia na pele.
Tenho um projeto sem nome, ela disse enquanto a poeira se acumulava pela estante de livros e as décadas amontoavam-se em fotografias.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Ao futuro

A noite arde ao revés
Todavia sua chama
Não enche o cálice dos forasteiros
A medida das horas não passa
Pelo vidro do relógio
E aos pés triunfantes
O espólio a derrota pertence
Em épocas outras
O nome da história
Pesava os dentes
Sortilégios rubros
Augúrios
Porém, desde sempre
Caminho o tempo para o fundo
De um olho que se apaga

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

o amor na tarde suada de janeiro

No calor de janeiro
na tarde suada de janeiro, decidi casar com a poesia
porque já não podia mais casar,
porque casei aos dezoito anos,
casei aos vinte e seis anos,
aos trinta e três anos

Minha mãe – pele negra sem rugas, em sabedori e chinelos de dedos – disse:
- Isso não é pra você!

Casei com a poesia ao ouvir a voz de Ginsberg no escritório abarrotado de papéis,
quando Hilda me ofereceu um cigarro.

Casei com a poesia no chão da sala,
na tarde suade de janeiro.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

aos que esquecem de dormir

Protege-me, a insônia
Da violência dos sonhos
No ritmo interno das palavras
Observando as falésias em teus olhos
E a aridez entre os lençóis

A insônia arrasta-me para o deserto
Em seus braços de marinheiro infiel

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

a palavra resgatou o poeta

o homem de todos os dias
agarrou o tempo que ia longe em sua vida,
em seus olhos invencíveis
desenharam-se longos parágrafos

o poema é a ciência
que corre com o vento

sábado, 13 de agosto de 2016

sempre

Seria sempre e a qualquer momento
Assim, sempre uma despedida após a outra
Um navio de pequenas mortes
De náufragos e naufrágios.

As lembranças
Levarei comigo
As insignificantes
Tão finas quanto a areia
Aos punhados, encherei os bolsos.

Aquelas – e não as outras
Plantarei junto à campa
No tumulto silencioso da noite.

sussuro


Era noite, parecia noite
quando o amor
me arremessou ao mar
e o medo fez os copos
caírem afogados.

Portanto, eis aqui
a letra de uma palavra
a voz silenciosa das vozes
a selva úmida enterrada nos ossos.

Parece, ainda parece
que a noite anda sobre o mar
que o vento sopra o sangue das ruas
E o amor, dizem
Arremessará o mundo no fogo.