terça-feira, 7 de março de 2017

Os sonhos cobrem meus olhos quando amanhece

Parecia mais importante escrever do que saber todo o resto.
sentia uma vaga e violenta esperança,
ainda que irmanada com os seres e as coisas debaixo da terra,
ainda que pudesse empobrecer à luz do dia.
Adiante o olhar para dentro do fim, o medo de despertar.
Sabia que não havia onde se esconder e a luta contra o tempo estava não apenas perdida,
mas também ausente.
Naquele ato resignado vivia uma satisfação como de um gole d’água.
Sim, as horas se devoravam a cada letra que surgia no papel,
entretanto era a única liberdade em direção às estrelas.
Deixou anotado no bilhete:
Se houver tempo, espero que se lembrem das coisas boas que fizeram.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Sugar Blues


(café brigadeiro cocaína sugar blues)

Todos os vícios se alimentam da virtude,
Por isso quero andar de cabeça farta
E pés virgens,
Quero descobrir o que o sol queima
Sob a pele dos santos, sob a pele dos falsos,
No intestino dos monstros.
Quero tirar a pele das palavras
Com a ponta do lápis
E tomar café amargo
Para gozo das úlceras.

quarta-feira, 1 de março de 2017

sobre a tristeza

Anotava uma palavra qualquer no canto do papel, depois prendia-a entre os dedos enquanto estrelas morriam. Quase não tinha um nome. Pensava, em sua habitual fadiga, se o mundo era tão confuso então porque não ser triste? A chuva lhe banhava os pés, a alegria lhe trazia culpa, chegava-se a ele algo brutal como uma lâmina cega. Sentava-se em algum bar, bebia, amava, se pudesse, sentia-se eufórico. Depois cambaleava e o mundo girava com ele. A felicidade o deixava desorientado.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

sobre a impaciência:

Sobre o que escreverei hoje? Que palavras me aguardam para além das grades e das janelas, lá fora, no céu ainda molhado? Sobre o que eu escreveria hoje se fosse um lápis ou fosse uma melodia, uma nota que se estende indefinidamente, tão longe quanto um peixe pode ir salgando o mar ou o cheiro do café num sonho?
E se eu fosse o homem fabril das palavras, um inventor qualquer de vírgulas, sobre o que eu escreveria hoje?
Sem dúvidas, um poema torto.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Amanhã

Amanhã é preciso cortar a grama
E pagar a luz
Pagar as contas da vida
E da solidão
Amanhã é preciso tirar o mármore do rosto
Desenterrar o temor da morte
E o ferro dos ossos

Meu rosto espreita o amanhã
Como se já o conhecesse
Porém se engana
E perde-se nas horas mofinas da madrugada
Acordado, finge dormir
Enquanto ao largo a vida corre
E o amanhã nunca vem

sábado, 28 de janeiro de 2017

Fotografia


Estava disposta:
Os dedos vagarosos repousados no sangue como se pudesse fecundá-los, a cabeça no mar a procurar estrelas, o sal queimando as mágoas que trazia na pele.
Tenho um projeto sem nome, ela disse enquanto a poeira se acumulava pela estante de livros e as décadas amontoavam-se em fotografias.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Ao futuro

A noite arde ao revés
Todavia sua chama
Não enche o cálice dos forasteiros
A medida das horas não passa
Pelo vidro do relógio
E aos pés triunfantes
O espólio a derrota pertence
Em épocas outras
O nome da história
Pesava os dentes
Sortilégios rubros
Augúrios
Porém, desde sempre
Caminho o tempo para o fundo
De um olho que se apaga