quinta-feira, 3 de agosto de 2017

[poema]

De um verso a outro
O poema rabisca a tarde
Atento as intempéries do mundo
E as investidas da morte

À cidade e a lógica do acúmulo
Oferta a necessidade física do afeto
Aos astronautas do semáforo
Cascas de sol e bergamotas

Um convite -
O mar à esquerda
Um desvio à direita -
Até a próxima esquina

quinta-feira, 27 de julho de 2017

[poema]

dormi a terra úmida:
as janelas abertas e o céu a nascer.
dormi o esquecimento para acordar um rio de pedras,
o momento ruidoso entre as horas.
dormi para escrever a morte que renova o trigo
sem esperança alguma,
como o vento.
dormi o sono do mundo,
os olhos repletos de silêncio,
grilhões e sonhos distantes.
dormi a última estrela,
homens em linha,
edifícios sem nome
e lá no fundo,
antes das paredes brancas,
teu rosto,
o amor confuso das nuvens.
assim, despertaremos

quarta-feira, 28 de junho de 2017

quando ainda sonhávamos com o BNH

Espalhados pelo vale
Edifícios e casas aos milhares
Espremendo contra o céu
Suor e sonhos financiados
Quarenta e oito anos em parcelas
Da manhã até a noite
Entre o cansaço do olho que dorme
E a insônia do olho que se mantém aberto
Fazendo contas.
De madrugada, em transe
Gritam às nuvens poemas hipotecados
Para êxtase dos juros
Travestidos em anjos.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

[poema]

Retiradas do concreto,
as palavras,
repousadas no canto inferior da memória,
páginas dezessete e dezoito,
reivindicam para si
a condição errante de poesia.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

[poema]

O poeta está nu
parado em frente a estante de livros
sentindo a solidez da vigília
procurando um título com olhos estrábicos
esperando ser fecundado pela poesia
pelos versos que saltam das páginas rasgadas
aspirando a poeira dos mortos

Musa da meia-noite
flutua insone sob o teto dos amantes,
leva recados em capsulas de analgésicos
promove orgias na sala de jantar
Dorme no mastro negro dos marujos
E com tua seiva escreve poemas no chão

domingo, 14 de maio de 2017

[poema]

No chão
a música que escrevemos
contra a solidão
como se pudéssemos domar o ímpeto das palavras
abrir caminho ao fogo entre as pedras
e de um rio sem nome
erguer nossas mãos
então assim poderíamos confundir a tormenta
com a disciplina do amor
e a ela entregar nossos campos de terra.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

[poema]

Como se fosse óbvio sobreviver à fila do pão,
ao cansaço que bate a cabeça contra a janela do ônibus,
à tristeza manifesta em cáries nos dentes,
às casas e edifícios espalhados pelo vale
a resmungar para as nuvens.

Assim vai a tarde e uma ilusão qualquer,
A mesma tarde da semana passada,
A mesma tarde de amanhã.