domingo, 27 de março de 2016

Aos homens

Quero encontrar meus amigos
Que moram no tempo,
Ouvir suas vozes insurgentes
No brusco entardecer.

Quero encontrá-los dentro da chuva,
Nas pegadas da cidade que festeja seus mortos,
Cobrir-lhes o rosto com madeira escura
E repousar em seus braços as preces que me ofertaram.

Quero embalar nossos sonhos
Em nuvens brancas e sonolentas,
Reencontrá-los no jardim na memória,
De costas para o vento e as mãos limpas
Com as quais um dia sonharam.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A hiperpoesia
Virá do sangue negro
Das mãos negras
Como um receituário de bênçãos
Bordado em roupa de festa,
Um estandarte da nossa cor
Cujo rosto não se esconde
Do calor infinito de janeiro

domingo, 3 de janeiro de 2016

dois mil anos

Ouvi a música das árvores
deitado na hora mais cinza do ano –
em que homens e trens davam as mãos.
cantando a descoberta do amor,
pano puído sobre um trono de madeira,
entregando-se à velha cidade virgem -
aqui onde caio refém de feitiços,
na negação da colheita,
no grito vazio que me bate o rosto e rói os ossos,
fiel as tuas súplicas,
prostrado em tuas pernas,
na hora mais suave da vida.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Pequena lua do oriente

Minhas calças puídas,
esses homens, essas mulheres:
Fantasmas! Fantasmas!

No ventre do furacão,
deusa dos olhos tropicais,
dos olhos entorpecidos,
da névoa que corrompe o sangue.
Amante minha, poesia.
Rascunho das músicas
que os sonhos condenam.

Tranquilos são os dias que passamos em guerra
a esperar a pequena lua do oriente.

sábado, 28 de novembro de 2015

poema para nossos pés descalços

...para Izabella

No verso do espaço
em branco,
Os olhos de Izabella,
De feitiço e fogo.

Tua voz negra rompe
A nuvem do silêncio,
Pele consciente
De seu toque mais puro,
Com dentes profundos
Mastigas a piedade,
Faz respirar a máquina
No corpo-liberdade.

Nos teus olhos
Nossos pés descalços
Caminham.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Hiroshima mon amour

Sim, estamos em guerra
Com os elefantes
E com os balões coloridos
E com as poças d’água

Estamos em guerra
Com as horas-aula
Com a pele que leva o archote
Pele preta parda e sem nome
Seca de afeto
De olhos exangues

Estamos em guerra
E hoje uma árvore contou-me um segredo:
Um homem parou de lutar

Dê-me as bombas de nêutron
Dê-me o beijo que é uma trincheira
Dê-me a chave da Hiroshima do amor

sábado, 19 de setembro de 2015

Encontros

O homem dá adeus ao cavalo
E da terra extrai um lápis
Impregnado de noite.

Olha em diagonal
Mulheres navegando garotos,
Consumindo cigarros sem prazer.

Olha os carros percorrendo
Ruas de chão batido.

O homem vertical nada vê
Suspirando o mofo da cidade,
Suspeitando das verdades impressas,
O sexo flácido nas mãos enferrujadas,
A vida despida de nuvens
À sombra de uma escada.

Nossas vozes poderiam se cruzar
Em algum ponto entre o desencontro
E o desencanto,
Mas deixo-as nuas na claridade augusta.

Talvez eu pudesse escrever outras estórias
Se não tivesse o corpo em chamas.