Era pelo grito que o poeta esperava;
recebia frutas diversas e acenos do povo,
mas era o grito das moças que ele ansiava, um tanto do suado prazer.
Todavia, sempre muito distraído, seu olho buscava uma palavra lá fora,
o verbo sobraçando nos galhos.
Projetava-se através das lentes minerais com pés enraizados no hoje.
Diante da sanha apaixonada, dizia-se fraco paras as coisas do espírito que nebulosamente habitam a carne.
Gastava suas horas – as melhores, entre os mortos,
as noivas de papel e os livros que jamais escreveria.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Ele só pensou tomara
Acordar, desacordar
Sentir o cheiro do amanhã
Viver com a esperança reduzida
Abrir a geladeira, fechar
Abrir a televisão, fechar
Fecho os olhos dentro do túnel. A parede continua verde, continua escura. O mofo do banheiro atravessou-a como se fosse um barco.
Não há janela e a vida está no reverso. Um raio negro queima o céu
Acordar, desacordar
Sentir o cheiro do amanhã
Viver com a esperança reduzida
Abrir a geladeira, fechar
Abrir a televisão, fechar
Sentir o cheiro do amanhã
Viver com a esperança reduzida
Abrir a geladeira, fechar
Abrir a televisão, fechar
Fecho os olhos dentro do túnel. A parede continua verde, continua escura. O mofo do banheiro atravessou-a como se fosse um barco.
Não há janela e a vida está no reverso. Um raio negro queima o céu
Acordar, desacordar
Sentir o cheiro do amanhã
Viver com a esperança reduzida
Abrir a geladeira, fechar
Abrir a televisão, fechar
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
O cão da estrada
No campo – cidadestino, onde as casas perderam o chão, encostei os pés flagelados.
Perdida a luneta de encontrar cão.
Escutei risadas, dentes à mostra, mapa da pele. O prazer da boca oculto floresce.
Escola aberta.
Enchi os bolsos com pedras. Pedi pra ficar. A lua apontou o caminho do nunca.
“A terra te abraça. Segue.”
A voz não tem rosto. O asfalto guia quem não tem fé. Deus de olhos escuros.
Na estrada, os cães não ladram.
Perdida a luneta de encontrar cão.
Escutei risadas, dentes à mostra, mapa da pele. O prazer da boca oculto floresce.
Escola aberta.
Enchi os bolsos com pedras. Pedi pra ficar. A lua apontou o caminho do nunca.
“A terra te abraça. Segue.”
A voz não tem rosto. O asfalto guia quem não tem fé. Deus de olhos escuros.
Na estrada, os cães não ladram.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Verborhagia - Revista Eletrônica de Literatura
Nossa estimada Verborhagia chega a usa terceira edição. Lindo de se ver, lindo de participar. Mandem seus textos
Leia aqui
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Máquina (You go to my head)
Ah, máquina. Rejubila-te. Sabe tão pouco da noite, dos dias. Tão pouco de quase tudo. Terreno úmido. Pensa ao invés de sentir. Porém, apesar do temor, bate. Exulta, as vezes. Acha que está sentindo, é um pensamento, uma arritmia. Não sabe. Mas pensando pulsa. É suave como o cool jazz, ressoa como se fosse o trompete do Chet Baker. Compreende o rancor, não o ódio. Tem se esforçado. Sou testemunha. Ninguém te desconhece tanto quanto eu.
Epílogo:
Equilibrei o guarda-chuva nos dedos da mão direita passando-o de um para o outro. Segurei a chuva. Agarrei-a com força. Segui. Eu nunca paro. Nunca chego. É o meu oficio. Os pés de barro.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Intermitente blues
Sucumbe ao trabalho do verme. O peito trêmulo, a voz agarrada num fio. Nem tudo se esvai nessa tristeza. Pior é sobreviver. Vê-la esfumada no tempo como se não tivesse existido. E ela é tudo. Todo o sentimento, tudo que perdemos, os pedaços, pessoas, o lugar onde padecem as palavras. Ninguém pode mudar as estações, as folhas caem sem poder escolher. As lágrimas retornam aos olhos, o céu se refaz. Irei reescrever uma terra sem mortes, uma mansarda – pedra sem chaga. Um eu destronado, outro em mim, refém. Choverá nos campos e eu ressuscitarei banhado nesse sonho até a tua casa. Abro a grade enferrujada e subo as escadas, joelhos esfolados no perdão.
Só então perceberei o rosto macilento e cansado...
Só então perceberei o rosto macilento e cansado...
sábado, 6 de setembro de 2014
o nó
Tenho esperado que desate o nó. Corro o risco de ficar à deriva, de não fixar-me aqui no bloco de pedra – de não estar neste corpo.
Daqui alguns anos terei o rosto macilento e cansado. O tempo é elástico só na cabeça de quem não o possui. Entre o mundo e as pequenas misérias, elejo as minhas. E nisso reside minha ruína. Há a escolha correta (a própria escolha). A força que direciona, diz o que é. Entretanto, existe a perna, a outra perna que me sustenta. A terceira. Ela é o corpo. Todo o corpo. O resto é osso. Mas essa perna é forte, tem a essência do movimento – crua, violenta, instável. Ela é carne. A força estranha que consome e navega. Do outro lado o livro. A luz que cura. Preciso ser curado para seguir a palavra, verter sangue. É a voz do livro contra o movimento da perna. Um evento que não pode ser evitado. Ele irá acontecer - precisa acontecer, assim manda a natureza. Dizer sim e negá-lo, dizer sim e negá-lo. Tudo dentro, tudo ali crescendo e secando, morrendo rápido, lentamente renascendo. Sou apenas este corpo. Não há revelação. Esse corpo sagrado que sofre mutilações, que nega o que lhe há de mais humano. Só a cabeça vive. Devo negá-lo. Dizem que essa vida acaba como se nem tivesse começado. Porém, é apenas no fim que percebemos. É só quando o tempo se gasta, quando a coragem termina. Um dia repeti tudo que fizera no dia anterior e assim fui aprendendo os gestos e repetindo-os sem saber o que fazia.
Daqui alguns anos terei o rosto macilento e cansado. O tempo é elástico só na cabeça de quem não o possui. Entre o mundo e as pequenas misérias, elejo as minhas. E nisso reside minha ruína. Há a escolha correta (a própria escolha). A força que direciona, diz o que é. Entretanto, existe a perna, a outra perna que me sustenta. A terceira. Ela é o corpo. Todo o corpo. O resto é osso. Mas essa perna é forte, tem a essência do movimento – crua, violenta, instável. Ela é carne. A força estranha que consome e navega. Do outro lado o livro. A luz que cura. Preciso ser curado para seguir a palavra, verter sangue. É a voz do livro contra o movimento da perna. Um evento que não pode ser evitado. Ele irá acontecer - precisa acontecer, assim manda a natureza. Dizer sim e negá-lo, dizer sim e negá-lo. Tudo dentro, tudo ali crescendo e secando, morrendo rápido, lentamente renascendo. Sou apenas este corpo. Não há revelação. Esse corpo sagrado que sofre mutilações, que nega o que lhe há de mais humano. Só a cabeça vive. Devo negá-lo. Dizem que essa vida acaba como se nem tivesse começado. Porém, é apenas no fim que percebemos. É só quando o tempo se gasta, quando a coragem termina. Um dia repeti tudo que fizera no dia anterior e assim fui aprendendo os gestos e repetindo-os sem saber o que fazia.
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