quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Ele só pensou tomara

Acordar, desacordar
Sentir o cheiro do amanhã
Viver com a esperança reduzida
Abrir a geladeira, fechar
Abrir a televisão, fechar

Fecho os olhos dentro do túnel. A parede continua verde, continua escura. O mofo do banheiro atravessou-a como se fosse um barco.
Não há janela e a vida está no reverso. Um raio negro queima o céu

Acordar, desacordar
Sentir o cheiro do amanhã
Viver com a esperança reduzida
Abrir a geladeira, fechar
Abrir a televisão, fechar

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O cão da estrada

No campo – cidadestino, onde as casas perderam o chão, encostei os pés flagelados.
Perdida a luneta de encontrar cão.
Escutei risadas, dentes à mostra, mapa da pele. O prazer da boca oculto floresce.
Escola aberta.
Enchi os bolsos com pedras. Pedi pra ficar. A lua apontou o caminho do nunca.
“A terra te abraça. Segue.”
A voz não tem rosto. O asfalto guia quem não tem fé. Deus de olhos escuros.
Na estrada, os cães não ladram.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Verborhagia - Revista Eletrônica de Literatura


Nossa estimada Verborhagia chega a usa terceira edição. Lindo de se ver, lindo de participar. Mandem seus textos


Leia aqui

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Máquina (You go to my head)


Ah, máquina. Rejubila-te. Sabe tão pouco da noite, dos dias. Tão pouco de quase tudo. Terreno úmido. Pensa ao invés de sentir. Porém, apesar do temor, bate. Exulta, as vezes. Acha que está sentindo, é um pensamento, uma arritmia. Não sabe. Mas pensando pulsa. É suave como o cool jazz, ressoa como se fosse o trompete do Chet Baker. Compreende o rancor, não o ódio. Tem se esforçado. Sou testemunha. Ninguém te desconhece tanto quanto eu.

Epílogo:
Equilibrei o guarda-chuva nos dedos da mão direita passando-o de um para o outro. Segurei a chuva. Agarrei-a com força. Segui. Eu nunca paro. Nunca chego. É o meu oficio. Os pés de barro.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Intermitente blues

Sucumbe ao trabalho do verme. O peito trêmulo, a voz agarrada num fio. Nem tudo se esvai nessa tristeza. Pior é sobreviver. Vê-la esfumada no tempo como se não tivesse existido. E ela é tudo. Todo o sentimento, tudo que perdemos, os pedaços, pessoas, o lugar onde padecem as palavras. Ninguém pode mudar as estações, as folhas caem sem poder escolher. As lágrimas retornam aos olhos, o céu se refaz. Irei reescrever uma terra sem mortes, uma mansarda – pedra sem chaga. Um eu destronado, outro em mim, refém. Choverá nos campos e eu ressuscitarei banhado nesse sonho até a tua casa. Abro a grade enferrujada e subo as escadas, joelhos esfolados no perdão.

Só então perceberei o rosto macilento e cansado...

sábado, 6 de setembro de 2014

o nó

Tenho esperado que desate o nó. Corro o risco de ficar à deriva, de não fixar-me aqui no bloco de pedra – de não estar neste corpo.

Daqui alguns anos terei o rosto macilento e cansado. O tempo é elástico só na cabeça de quem não o possui. Entre o mundo e as pequenas misérias, elejo as minhas. E nisso reside minha ruína. Há a escolha correta (a própria escolha). A força que direciona, diz o que é. Entretanto, existe a perna, a outra perna que me sustenta. A terceira. Ela é o corpo. Todo o corpo. O resto é osso. Mas essa perna é forte, tem a essência do movimento – crua, violenta, instável. Ela é carne. A força estranha que consome e navega. Do outro lado o livro. A luz que cura. Preciso ser curado para seguir a palavra, verter sangue. É a voz do livro contra o movimento da perna. Um evento que não pode ser evitado. Ele irá acontecer - precisa acontecer, assim manda a natureza. Dizer sim e negá-lo, dizer sim e negá-lo. Tudo dentro, tudo ali crescendo e secando, morrendo rápido, lentamente renascendo. Sou apenas este corpo. Não há revelação. Esse corpo sagrado que sofre mutilações, que nega o que lhe há de mais humano. Só a cabeça vive. Devo negá-lo. Dizem que essa vida acaba como se nem tivesse começado. Porém, é apenas no fim que percebemos. É só quando o tempo se gasta, quando a coragem termina. Um dia repeti tudo que fizera no dia anterior e assim fui aprendendo os gestos e repetindo-os sem saber o que fazia.

domingo, 6 de julho de 2014

A copa do mundo é nossa

Sentou para ver o jogo. Era Copa do Mundo, mas não parecia. Uma formiga circulava ao redor da xícara de café. Ele desejou que ela morresse queimada ao encostar na xícara. Imaginou a cena de diversas maneiras, porém todas lhe pareceram inverossímeis. Pensava muito em morte. Na verdade, ao longo do dia, desejava muitas vezes que muitas pessoas morressem. Todavia, esses pensamentos recorrentes não eram coisa real, careciam de maldade. Era uma raiva. Quase nada. Não se julgava má pessoa.

Levantou-se para ir à cozinha, porém antes entrou no quarto do escritório e viu Hannah deitada no sofazinho com um livro aberto no peito. Esticou o pescoço a fim de ver o título, depois olhou a estante repleta de livros, alguns caindo das prateleiras, uma pilha no chão. Achou aquilo estúpido, balançou a cabeça. Serviu-se de ambrosia. Ao retornar à sala teve o impulso de olhar mais uma vez Hannah. Continuava deitada. O livro aberto sobre o peito e o braço largado no chão. A cabeça pendia um pouco para a esquerda. Não ressonava ou arfava, seu corpo todo era silêncio. Notou a boca entreaberta. Pensou em tocá-la para conferir a temperatura, talvez... Desistiu.

Sentou-se para continuar a ver o jogo, afinal era Copa do Mundo. A formiga jazia ao lado da xícara como se fosse um pontinho preto, enroscada em si mesma. Parecia sujeira. Naquele momento soube que era uma pessoa ruim.