sexta-feira, 22 de março de 2013

O dedo apontava estrelas e ventilava quimeras com o pequeno gesto. Os olhos, pálpebras, abriam e fechavam com tamanha rapidez delicada que pareciam imóveis. Olhar o céu não era o que restava, ao contrário, bastava-nos, saciava os anseios mirar o destino que o ínfimo dedo indicava. O risco e o riso, anjos e astronautas, o traço aleatório de um deus. Transfigura-te, disse.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

À Deriva


Olhei para as mãos de Raquel; magras, dedos longilíneos, unhas feitas, porém sem esmaltes, e aliança no dedo indicador da mão esquerda. Não domino a convenção destes códigos, não faz diferença, é somente a transitoriedade dos símbolos. Um papel cunhado com um rosto e um número ao qual atribuímos o nome de dinheiro, enquanto outros chamam de felicidade. Raquel estava sozinha na mesa, impaciente, mexendo no celular lidando com preocupações reais ou inventadas. Fiquei observando de longe seus cabelos loiros ondulados, o rosto delgado e o olhar miúdo e pensativo. Era Raquel e seus medos, incerta do que estava fazendo, confusa a respeito do que sentia e como, ou porque, se via compelida a colocar toda a sua vida em jogo. Os filhos pequenos; Ana e Rafael, o emprego no colégio, a carreira acadêmica, o prestígio e a imagem que tinha de si mesma. Devia estar se perguntando por que se atrevera a perder aquilo que de mais caro possuía; a rotina arduamente perseguida e moldada ao longo dos anos.
Em minha defesa digo que não me propus a corromper sua vida, invadi-la insidiosamente com um linfoma cancerígeno ou com a violência dos tornados. Não havia me programado para conhecê-la, ao contrário, continuo a desconhecendo. O que sei a seu respeito é involuntário, fragmentos que se foram descolando de sua boca extenuada enquanto nos deixávamos abandonados na cama como que distantes de nós mesmos. Raquel se distendia pelo colchão, jogava as pernas por sobre meu corpo e falava, lúcida e impassível, de sua vida como se comentasse a existência de outra pessoa. Creio que tenha sido ela a me escolher, que estava decidida antes que eu a tivesse olhado pela primeira vez, antes que em minha mente surgissem as primeiras e tímidas evocações da sua presença. Não que eu esteja me isentando de tudo que lhe disse, das promessas sussurradas ao ouvido de que nada mudaria no concerto monolítico de nossas vidas, e também das coisas que não foram ditas. Acordamos um contrato de cláusulas ignoradas. Ainda assim lá estava Raquel saída do meio da tarde, blusa branca e calças jeans, iluminada por um facho de luz que cruzava o ambiente e repousava em seu rosto. Poucas vezes voltaria a vê-la tão linda, dotada de uma inocência que não existia entre nós, assombrada por temores que eu não podia garantir serem infundados. Eu também os sentia. Não era vergonha de sermos descoberto, talvez algo mais próximo da ansiedade, ou do terror que invade o preso na sala de tortura a espera do destino que se lhe apresenta inexorável. Certa resignação. O medo de que Raquel se tornasse para mim uma necessidade e em algum momento um de nós dois tivesse o rompante, tanto equivocado quanto ingênuo, de estender ao outro a armadilha dos amantes: o amor, a fuga romântica da realidade, o recomeçar a vida aqui em outro lugar, outro tempo. Não há como remediar as ilusões. Porém, nessa época vivíamos o desconhecido, a beleza selvagem do infortúnio. Raquel sorriu seu meio sorriso e penetrou seus olhos nos meus. Tive vontade de colocar minha mão sobre a sua, mas contive o ímpeto. Conversamos futilidades amenas naquela meia hora, contando em segredo os minutos que nos separavam do acanhado quarto de hotel. Só depois de muito tempo é que fui entender que já estávamos distantes, à deriva no mar.

Desalinhando


O blog desandou. Não era minha intenção deixá-lo tanto tempo desativado, mas o fato é que ficou. Aquelas coisas que vão acontecendo, vamos deixando, e que depois de um tempo, sem nem nos darmos conta, entram no gerúndio. No final do ano passado não havia espaço para fazer mais nada. Tirei férias de sentir vontade de fazer qualquer coisa a não ser entrar em férias. Não fiz retrospecto de fim do ano, balanço final ou coisa do tipo, apenas segui perseguindo os dias de praia e prazer. Eles chegaram e já se foram, mas não com pressa, ao contrário que sempre supomos que acontecerá, escorreram preguiçosos, repletos das coisas que gosto de fazer: albatross, prancha nova, altas ondas, água limpa e sol. Inclusive os dias de chuva foram generosos. Não foi todo o tempo assim, porém prefiro manter os que valeram a pena na memória. Não vou me estender muito nessa história. Fevereiro chegou trazendo trabalho, calor em Porto Alegre e uma parada para o carnaval. Acabou a temporada. É isso. De volta á vida como ela costumava a ser. Então me bateu aquela vontade realinhar o blog no desalinho novamente, ou talvez tenha sido mais um desejo de renovar certos votos, como o de escrever, por exemplo. Eu não sei qual foi a minha intenção ao criá-lo, quiçá uma forma de materializar o sonho de escrever e ser lido, mesmo que eu não o seja por ninguém, exceto o Daniel Rock (é ou não é, Daniel?!). Mesmo assim ele existe, é um projeto, um desejo, inspiração. Um sei-lá-oque. Portanto, estamos aqui 2013. Escrevi para o Daniel dizendo que tinha bons pressentimentos em relação a esse ano. Não sei, me parece até um pouco idiota esse tipo de previsão mágica – logo a voz severa que opera dentro da minha cabeça diz que se eu não me mexer muito mais do que costumo a fazer nada (nada mesmo, nadinha) irá acontecer. Entretanto acho que é esperança o que tentei expresar, esse sentimento inominável, essa crença que de certa forma me leva a sair do lugar e pensar que podemos ser melhores do que isso, do que temos sido preguiçosamente ao longo dos dias, que a vida será melhor. Yes, we can! Não tirei férias da literatura, muita coisa boa foi lida, mas não vou comentar um por um aqui, me parece um pouco de exibicionismo presunçoso fazer lista de leitura das férias. Enfim, no momento estou lendo o inspirador Do que eu falo quando eu falo de corrida, do Haruki Murakami. Na minha singela e modesta opinião uma pequena jóia, tendo em vista que logo em breve correrei minha primeira prova;extensos e longínquos 5km. Maratona de Nova York, aí vou eu!

domingo, 21 de outubro de 2012

O ancião

O gosto inequívoco. Voltar aos lugares marcar em mim a presença das coisas. Estacionar no mesmo lugar, percorrer o mesmo trajeto, falar com o homem da rua que guarda carros. Provar do ar gelado que a manhã carrega, estabelecer uma corrente de sentidos, registrar mais do que com os olhos. Minha mente investiga o que se move, de repente, sem aviso. Esse é meu ofício; o registro do que se percebe, mas não se vê.


“Profundamente dentro de si, carregava a escuridão, o refúgio e a calma de uma casa, e acima dela ele próprio se tornara o céu e a floresta em torno e a amplidão e o grande curso d’água que sempre por ali fluía. Que solitário é esse ancião que, mergulhado em si mesmo, se ergue repleto de seiva como uma velha árvore no outono! Ele se tornou profundo; para o seu coração escavou uma profundeza e o batimento dele vem de longe, como do interior de uma montanha .”
Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Café Luna


O chão úmido denuncia que choveu há pouco. Faz um calor abafado, um mormaço saído de uma caldeira. Entro no café Luna e penso em escrever um conto que tenha a ver com morte, talvez motivado pelo cheiro ácido e sufocante dos cigarros, ou pela visão que tive dos velhos reunidos ao meio-dia da terça-feira, tomando café e fumando, na contramão de tudo que nos esforçamos para manter. Provavelmente já trabalharam o suficiente e agora desfrutam do merecido ócio da aposentadoria. Porém, a maioria deles não me engana, dândis que jamais sujaram as mãos. Um homem alto de cabeça raspada entra no café, tem por volta de quarenta anos. Magro, camisa xadrez puída nos punhos e sandálias marrom. Dirige-se ao balcão e fala com o garçom. Fica em pé por alguns minutos escolhendo uma mesa. Aparenta demasiada indecisão. Releio o que escrevi até agora e tento, na medida do possível, eliminar os adjetivos. Mantenho os olhos no homem, ele tem o perfil. Introspectivo e apático. Parece alguém que acoberta frustrações diversas e ódio. Pode ser ele, pois, além de mim, é o único sozinho no café, e não fuma. Se no conto houver morte um de nós será o responsável. Entretanto, se eu matá-los não poderei terminar de escrever, de maneira que ele é a opção restante. Matará os velhos, ou um dos velhos. Não posso matar a todos, é pouco verossímil. Quem mataria um punhado de velhos inofensivos sentados num café ao meio-dia de uma terça-feira? E o que é nosso homem? Um psicopata? Um órfão ressentido em busca de vingança? Um desempregado? Olho mais uma vez o algoz sentado debaixo do quadro da Marilyn Monroe; olhar absorto em um lugar remoto, ele mesmo apresentando sinais claros de decadência. Não só o envelhecimento físico, mas uma espécie de falta de vida como se nele ela já estivesse minguando. Mas, assim como ele, não estamos morrendo aos poucos iludidos por nossas vestes de invencíveis, jovens, arrogantes, ébrios? Morrendo pelo supérfluo, por números, metal. O homem contempla a passagem do tempo. O cheiro do café recende no ar. Ainda não estou certo de que ele é capaz do ato. Porém, os anciãos podem mais que nós todos e me olham com reprovação, como se soubessem o que tenho em mente enquanto corro os dedos pelo teclado do notebook. Em seus olhos há algo mais do que apenas censura, um misto de comiseração, raiva e prazer. Nada me pedem, nem suplicam, pois não temem a morte, já ultrapassaram esse dilema. Lá fora o sol brilha com suave intensidade depois de ter se mantido enclausurado entre nuvens durante boa parte da manhã. A claridade se derrama pelo salão da cafeteria. Os velhos voltam a fumar, o vozerio soa animado. O homem termina de beber o café que pedira e com um gesto chama o garçom. Do bolso das calças retira um bloco de notas e escreve algo. Arranca a folha e a entrega para ele. Levanta-se, lança um aceno discreto em minha direção, e vai embora. Tenho o ímpeto de segui-lo, sinto o corpo mover-se involuntariamente. Porém, uma força desconhecida faz com que eu permaneça sentado. Percebo que o garçom sorrateiramente me observa, sei que meu nome está escrito naquele papel, que deveria fugir, mas não o faço, e que algo irá acontecer. Os ançiãos silenciam.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Mil Manhãs Semelhantes

Fragmento de um projeto que acalento faz tempo e aos poucos vem tomando forma. Um rascunho de abertura. Obrigado, Daniel.



“Mil manhãs semelhantes, cinzas e chuvosas. Senti preguiça, mais do que isso, senti um esmaecimento como se o mundo tivesse parado de respirar, suspenso no mar, flutuando.”

Andando pela beira da praia encontrei Carol. Era um sábado de junho, inicio do mês, e batia um vento gelado de sul. Ninguém no mar, uns poucos pescadores - aposentados que sonharam a vida toda em trocar a cidade pelo litoral,– arriscavam molhar os pés na água turva. Alguns vira-latas corriam de um lado para o outro. Havia chegado a Santa Terezinha naquela manhã. Larguei o carro e fui descansar os olhos no mar. Quando criança imaginava que era possível nadar até lá onde não dá mais vista e escalar o céu. Durante os meses do inverno ia pelo menos uma vez no mês dar uma olhada na casa da praia que um dia fora de meus avós e agora me restara de herança. Julgava a casa e a praia como as únicas coisas verdadeiramente imutáveis no mundo. Claro que haviam sofrido alterações, sobretudo a casa, no entanto era como se estivessem embutidas numa espécie de fenda onde não podiam ser violadas por força externa. Sem dúvida a marca do tempo se fazia presente, porém de forma inescrutável. Meus avós estavam mortos, meus pais separados, meu irmão fora do país e meus tios cada qual vivendo seus problemas, portanto a casa da praia era a minha família.
No verão recebia alguns convidados, eventualmente alguém de Porto Alegre, velhos amigos ali mesmo da praia e Carol. Não a mesma Carol que eu reencontraria em um sábado de junho na beira do mar, mas a mulher que vivia comigo há seis anos e que também se chamava Carol. Talvez uma simples ironia da vida. Conhecemos-nos quando fui ao seu consultório lhe confidenciar minhas inquietações existenciais. Solícita, provavelmente apiedada, abdicou da ética profissional e me estendeu um convite para vê-la participar de um evento, literatura e psicanálise, numa pequena livraria-café no bairro onde eu morava. Coincidência, disse ela. Sendo assim, após o evento, tomamos café, rimos descontraidamente e demos fechamento a noite no sofá do meu apartamento ouvindo “I love you Porgy” na voz de Nina Simone.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Se tudo acabasse agora

Gosto de voar, sinto uma emoção inexplicável, talvez aparentada do medo, misto de ansiedade e prazer infantil. Formidável invenção humana, falso ato demiurgo: colocar aquela baleia com asas no ar e sustê-la até alcançar o que me parece ser o infinito. Ícaro também deslumbrou-se com o céu. Seu pai, Dédalo, renomado inventor, foi condenado ao exílio por ter jogado do alto da Acrópole o sobrinho Ácale. Partiu para Creta, reino de Minos, e lá criou o labirinto onde foi aprisionado pelo soberano junto com Ícaro e o Minotauro. Dédalo então fabricou dois pares de asas artificiais com as penas caídas dos pássaros que sobrevoavam o labirinto, colando-as com grossa camada de cera. Alçaram voo deixando o cárcere, contudo Ícaro inebriou-se pelas alturas e se esqueceu da recomendação paterna de não se aproximar em demasia do sol. A cera que fixava as asas derreteu e Ícaro despencou dos céus caindo ao mar. Morreu afogado.

Peguei o voo das 16h com destino à Campinas, viagem rápida, menos de uma hora e meia. Sentei ao lado da pequena escotilha e a deixei aberta. Tarde ensolarada, temperatura amena, algumas nuvens no céu. Toda a preparação feita até o momento da decolagem ameniza minha ansiedade. - Vamos voar! Corremos pela pista acelerando tudo que a máquina pode dar, sacolejando de um modo desengonçado e de repente o zepelim está no ar – penso em Robert Plant, Jimmy Page e John Bonham em ação. Lá do alto as cidades se tornam miniaturas numa maquete e o mar mostra toda sua grandeza e generosidade pela humanidade. Nunca a vida esteve em tão perfeita harmonia quanto agora. E se tudo acabasse aqui, tragado por esse céu tão sereno? Se o avião simplesmente caísse até encontrar o chão? Acima das nuvens, próximo ao sol tal qual Ícaro. Abaixo de mim um campo imenso de nuvens, e não consigo pensar em outra metáfora que não seja algodão, silencioso e reconfortante. E se tudo acabasse agora? Trago involuntariamente a memória o pátio da minha casa, o sorriso de minha mãe e o rosto de meu pai. Vejo também minha esposa e o Precioso, um cachorro que tive quando adolescente. Um dia, já velho e praticamente cego, saiu portão a fora e jamais voltou. Acho que ele não quis morrer e decidiu perder-se. Um arrepio suave me percorre o corpo, é estranho. Sentiria saudades de minha vida, de quem sou e das pessoas que amo. Ao aproximar meu rosto da pequena janela do avião percebo que estou grato. Não tenho medo, ainda não é o momento, e mesmo que o fosse, se tudo acabasse ali mesmo, eu sentiria apenas amor, beijaria a alma daquelas pessoas e descansaria no mar. Então pensaria no Precioso: enfim nos encontraremos.