segunda-feira, 16 de abril de 2012
um coração doente
Não que odiasse a vida ou o mundo, talvez nem odiasse alguma coisa de verdade. Não era tão ruim assim, havia tido bons momentos, até poderia dizer que eles haviam sido a maioria. Era apenas o tempo que aquilo se prolongava. Um sentimento infatigável de ausência, a falta de algo que até então não soubera decifrar. Algo que estava sempre aquém, fora, que talvez um dia chegasse, que talvez tivesse forma, mas ele não a conhecia, talvez um rosto ou nome. Pensou que era o amor, as mulheres. Depois achou que deveria escolher uma e persistir. Achou que tivesse a ver com o dinheiro e a falta de um trabalho que lhe preenchesse as ambições. Porém, abandonou naturalmente esse pensamento, pois nem um nem outro, dinheiro ou trabalho, lhe moviam as ambições, e também não saberia dizer se as tinha ou quais eram.
Supôs que sofria de uma espécie de dilema adolescente. Fizera tudo o que pudera para amadurecer. Trabalho, graduação, casamento, contas. Ainda não havia tentado um filho. Amigos seus já haviam feito, estavam passando pela experiência e pareciam felizes nas fotos. Imaginou que fosse algo que também pudesse fazer. Sim, podia, mas, ainda assim. Num dia qualquer, numa tarde amena de início de outono, olhando televisão enquanto sua companheira dormia, sentiu que havia algo errado: o sol lá fora, as pessoas na televisão, a respiração compassada da mulher, o quarto em que estavam deitados. Dessa vez não era a falta, mas um mal estar como se o ar estivesse minguando no peito. Deu-se conta que não era a vida, talvez até alguém desejasse de estar no seu lugar; de lhe tomar o emprego, a casa. Não era a vida que estava errada. Chegou à conclusão de que era dono de um coração doente, um órgão infértil que o fazia desapaixonar-se - batia desinteressado, e a esse coração havia entregado sua vida, e outros também o haviam feito sem saber. Contudo, agora já não podia esconder o fato de si mesmo. Deitou-se na cama com os olhos abertos num infinito pensar, o teto ruiu-se aos pedaços e revelou um céu esmaecido.
Comprou um revólver usado de um vizinho policial aposentado, um trinta e oito cano curto todo preto. Sua ideia era dar um tiro no peito, bem no coração, e assim trocá-lo por outro. Porém não queria um transplante, um coração combalido e cheio de más recordações de um infeliz qualquer que tivesse morrido acidentalmente. Precisava ele mesmo construir um novo coração. Pegou uma folha de papel em branco e nela o desenhou com esmero, apesar das linhas tortas. Depois escreveu os nomes das pessoas que amava e das coisas que haviam sido boas. O nome da mãe e dos irmãos, da mulher, do cachorro, de alguns amigos e o de uma banda que gostava desde a adolescência. Lembrou-se da praia onde veraneava quando criança e a incluiu ao lado da avó. Deixou um bom espaço em branco e disse que iria enchê-lo dessa vez.
Sentou-se na única poltrona que havia na sala de estar, de frente para a janela, e com a ponta dos dedos apalpou demoradamente o peito. Sentiu que algo lá dentro se encolhia de maneira que teve certeza de que encontrara a localização exata do coração. Tirou do bolso o coração de papel que havia feito, desdobrou-o com cuidado e o prendeu na camiseta com um alfinete no local em que o outro se encontrava. Encostou o cano do revólver no peito e coração disparou.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
A ARMA DE CHUMBO
O pai colocou a pistola de ar comprimido na mão do garoto. “Empunha com as duas mãos, segura firme e aperta o gatilho”. Não era fácil fazer mira com aquele negócio, pesava bastante. O menino concentrou-se, fechou um dos olhos, abriu um pouco as pernas disparou a arma. Escutou apenas o zunido e nem viu onde ou o que o chumbinho atingiu. Vai de novo, disse o pai.
A pistola havia surgido como parte de um plano para afugentar os gatos que circulavam no forro da casa da praia. Casa antiga de tijolo á vista, simples e aconchegante. Herança de família. Desde que se dera por gente lembrava-se de passar os verões lá, e sempre havia algum bicho para espantar, fossem gatos, gambás ou até sapos pelos quais nutria verdadeira aversão. Onde já se viu ter medo de sapo, dizia o pai. A idéia da pistola partira do marido da irmã, sorriu feito um moleque quando a verbalizou. No dia seguinte já estavam de posse da arma.
Antes de atirarem nos gatos precisavam treinar e era isso que estavam a fazer desde o início da tarde. O pai até que era bom, mostrava intimidade no manuseio da pistola, era de se supor que já houvesse atirado antes. Serviu o exército quando jovem, porém nunca possuíra arma de fogo em casa e, no fundo, aquilo não parecia fazer parte do seu temperamento, algo impaciente e ríspido, entretanto sempre racional. O menino recarregou a pistola com chumbinho enquanto o pai ajustava o alvo improvisado, uma garrafa de coca-cola. Sentiu o peso da arma nas mãos e a empunhou cerimoniosamente como se estivesse lidando com o sagrado. Como seria atirar em alguém? O que se passava na cabeça das pessoas que matavam outras? Uma onda de ansiedade lhe correu pelo corpo, os músculos das costas se contraíram. Mesmo que de modo difuso, embaralhado na consciência de sua pouca idade, intuía que a violência lhe conectava a algo maior e anterior a ele, uma espécie de ancestralidade. Mais do que isso. Sim, chegou á conclusão de que poderia matar, já o fizera antes em algum lugar remoto de sua lembrança corpórea. Era um menino, mas se transformaria num homem, e como tal seria dado a matar ou morrer. Dessa forma é que haviam chegado até ali. Colocou o dedo no gatilho e apontou a arma. Surpreendeu-se com a voz do pai: “Aponta essa porra pra lá! Ficou maluco?! Me dá isso aqui”. Arrancou a arma da mão do menino e o empurrou. Em seguida emendou: Agora vem cá, faz como eu te disse. “Empunha com a duas mãos, faz a mira e aperta o gatilho. Vai!”
A pistola havia surgido como parte de um plano para afugentar os gatos que circulavam no forro da casa da praia. Casa antiga de tijolo á vista, simples e aconchegante. Herança de família. Desde que se dera por gente lembrava-se de passar os verões lá, e sempre havia algum bicho para espantar, fossem gatos, gambás ou até sapos pelos quais nutria verdadeira aversão. Onde já se viu ter medo de sapo, dizia o pai. A idéia da pistola partira do marido da irmã, sorriu feito um moleque quando a verbalizou. No dia seguinte já estavam de posse da arma.
Antes de atirarem nos gatos precisavam treinar e era isso que estavam a fazer desde o início da tarde. O pai até que era bom, mostrava intimidade no manuseio da pistola, era de se supor que já houvesse atirado antes. Serviu o exército quando jovem, porém nunca possuíra arma de fogo em casa e, no fundo, aquilo não parecia fazer parte do seu temperamento, algo impaciente e ríspido, entretanto sempre racional. O menino recarregou a pistola com chumbinho enquanto o pai ajustava o alvo improvisado, uma garrafa de coca-cola. Sentiu o peso da arma nas mãos e a empunhou cerimoniosamente como se estivesse lidando com o sagrado. Como seria atirar em alguém? O que se passava na cabeça das pessoas que matavam outras? Uma onda de ansiedade lhe correu pelo corpo, os músculos das costas se contraíram. Mesmo que de modo difuso, embaralhado na consciência de sua pouca idade, intuía que a violência lhe conectava a algo maior e anterior a ele, uma espécie de ancestralidade. Mais do que isso. Sim, chegou á conclusão de que poderia matar, já o fizera antes em algum lugar remoto de sua lembrança corpórea. Era um menino, mas se transformaria num homem, e como tal seria dado a matar ou morrer. Dessa forma é que haviam chegado até ali. Colocou o dedo no gatilho e apontou a arma. Surpreendeu-se com a voz do pai: “Aponta essa porra pra lá! Ficou maluco?! Me dá isso aqui”. Arrancou a arma da mão do menino e o empurrou. Em seguida emendou: Agora vem cá, faz como eu te disse. “Empunha com a duas mãos, faz a mira e aperta o gatilho. Vai!”
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Nada Surf
"É, mas quando entra na água
É na primeira braçada
É, ele não vale uma naba
Ele não surfa nada, ele não surfa nada."
(Surfista Calhorda - Os Replicantes)
Eu surfo. Não costumo falar sobre isso com outras pessoas; por exemplo, meus colegas de trabalho, vizinhos, conhecidos. Não saio por aí alardeando. Não é vergonha, ainda que exista flutuando na minha cabeça um certo estereótipo de como os surfistas devam ser ou agir. E também não chego a me considerar da classe. Digo apenas que surfo, caso o assunto venha á tona. Talvez, no fundo, seja vergonha.
Não surfo bem, é isso. Me incluiria na categoria iniciante apesar de já estar nessa há algum tempo. Comecei a surfar lá pelos meus vinte e poucos anos, obviamente tarde, e não consegui evoluir muito, ou pelo menos o tanto que gostaria. Minha família tem casa na praia e toda vez que vou para lá, em especial no verão, aliás, unicamente entre dezembro e fevereiro (talvez isso explique minha pouca evolução), tiro a prancha do saco e a coloca na água. Acredito que todo mundo em Albatroz surfa melhor do que eu, mesmo que ninguém esteja lá para medir habilidades. A questão toda é que não consigo deixar de insistir nesse negócio. Sempre chego fisicamente despreparado e levo alguns dias para recobrar a intimidade com a prancha, o posicionamento, a força da remada. E tem outra: surfo pior ainda de backside (de costas para a parede da onda), então quase que exclusivamente entro só de front nas ondas. Trocando em miúdos; minha habilidade e performance são limitadíssimas, as vezes canhestras, e em certo dias chego a sentir-me constrangido, tomado de vergonha. Incontáveis vezes, enquanto estou na solidão daquele vasto mar, me pergunto por que não desisto de uma vez por todas. Existe algo no surf que é inominável e que está além do que qualquer imagem midiática possa nos fazer crer. Não é sobre performance, sobre a marca das roupas, fotos de ondas perfeitas em praias paradisíacas, ou ainda ondas monstruosas sendo surfadas por homens destemidos. Todas essas coisas fazem parte de um universo especifico muito distante do horizonte cinza escuro do meu Albatroz. Esse algo inominável, quase surreal, que é estar dentro do mar em cima de um bloco flutuante como se navegasse na correnteza imemorial do tempo, diluído numa parte do infinito, é que me faz sempre voltar. Remo com força, o coração aos saltos, para entrar naquela parede líquida e mal posso acreditar que estou em pé deslizando sobre a água como se tudo não passasse de mágica. Esses momentos, esses breves momentos, de redenção e magia.
Todo ano é a mesma coisa. Acho que dessa vez será diferente, que meu corpo urbano e monolítico enfim fará com que eu desista da empreitada. Contudo quando meus olhos recaem sobre o mar uma espécie de desassossego me percorre a alma. Não tem jeito, ainda não será dessa vez.
É na primeira braçada
É, ele não vale uma naba
Ele não surfa nada, ele não surfa nada."
(Surfista Calhorda - Os Replicantes)
Eu surfo. Não costumo falar sobre isso com outras pessoas; por exemplo, meus colegas de trabalho, vizinhos, conhecidos. Não saio por aí alardeando. Não é vergonha, ainda que exista flutuando na minha cabeça um certo estereótipo de como os surfistas devam ser ou agir. E também não chego a me considerar da classe. Digo apenas que surfo, caso o assunto venha á tona. Talvez, no fundo, seja vergonha.
Não surfo bem, é isso. Me incluiria na categoria iniciante apesar de já estar nessa há algum tempo. Comecei a surfar lá pelos meus vinte e poucos anos, obviamente tarde, e não consegui evoluir muito, ou pelo menos o tanto que gostaria. Minha família tem casa na praia e toda vez que vou para lá, em especial no verão, aliás, unicamente entre dezembro e fevereiro (talvez isso explique minha pouca evolução), tiro a prancha do saco e a coloca na água. Acredito que todo mundo em Albatroz surfa melhor do que eu, mesmo que ninguém esteja lá para medir habilidades. A questão toda é que não consigo deixar de insistir nesse negócio. Sempre chego fisicamente despreparado e levo alguns dias para recobrar a intimidade com a prancha, o posicionamento, a força da remada. E tem outra: surfo pior ainda de backside (de costas para a parede da onda), então quase que exclusivamente entro só de front nas ondas. Trocando em miúdos; minha habilidade e performance são limitadíssimas, as vezes canhestras, e em certo dias chego a sentir-me constrangido, tomado de vergonha. Incontáveis vezes, enquanto estou na solidão daquele vasto mar, me pergunto por que não desisto de uma vez por todas. Existe algo no surf que é inominável e que está além do que qualquer imagem midiática possa nos fazer crer. Não é sobre performance, sobre a marca das roupas, fotos de ondas perfeitas em praias paradisíacas, ou ainda ondas monstruosas sendo surfadas por homens destemidos. Todas essas coisas fazem parte de um universo especifico muito distante do horizonte cinza escuro do meu Albatroz. Esse algo inominável, quase surreal, que é estar dentro do mar em cima de um bloco flutuante como se navegasse na correnteza imemorial do tempo, diluído numa parte do infinito, é que me faz sempre voltar. Remo com força, o coração aos saltos, para entrar naquela parede líquida e mal posso acreditar que estou em pé deslizando sobre a água como se tudo não passasse de mágica. Esses momentos, esses breves momentos, de redenção e magia.
Todo ano é a mesma coisa. Acho que dessa vez será diferente, que meu corpo urbano e monolítico enfim fará com que eu desista da empreitada. Contudo quando meus olhos recaem sobre o mar uma espécie de desassossego me percorre a alma. Não tem jeito, ainda não será dessa vez.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
2012 agora vai!
Nada caí do céu, afirma a sabedoria popular, também conhecida por senso comum. Tudo que nos acontece está amparado por uma complexa rede de fatos, alternativas e escolhas que tomamos ou que deixamos de tomar. Lendo um excelente livro do Luís Augusto Fischer, Filosofia Mínima – Ler, escrever, ensinar, aprender - escritor, professor e ensaísta pelo qual tenho o maior respeito e admiração, descobri que insisto nesta história de escrever porque não me resta outra alternativa, porque não sei como elaborar minhas experiências se não for por meio da escrita, e porque não consigo viver sem pensar nos significados (ínfimos e aterradores) envolvidos em cada ação que pratico. Tenho essa necessidade de investigar e ressignificar minhas experiências, de colocá-las em algum lugar que não seja o esquecimento ou a dormência. Dessa forma, sentado nesta confortável cadeira de palha na casa da minha família na praia de Albatroz, penso que se cheguei aqui não foi por acaso, mas porque escolhi e porque uma série de fatores conspirou favoravelmente para que isso acontecesse. Contudo o objetivo não é escrever sobre as graças, ou infortúnios, porque os dois coexistem lado a lado sempre, de estar na praia enquanto milhares de pessoas não estão, mas pensar um pouco no ano que finda, e por mais que vivamos num presente incessante, é mais um ciclo que se encerra. Então, o que me trouxe até aqui? Vivo com certa angústia, umas tantas incertezas; minha vida segue em retas paralelas que não se comunicam, temo que jamais venham a fazê-lo. Uma delas é das coisas como elas são; o trabalho, a mulher, os amigos, o local onde vivo, a cidade. É a estrada concreta. A outra é das minhas aspirações, das fantasias, os sonhos e o tempo que sempre me parece inesgotável. Parece óbvio que com a idade que tenho já deveria estar mais esperto, um pouco mais maduro, e já capaz de reconhecer a discrepância que há entre o real e o suposto. Deveria me frustrar menos. Confesso que peco ás vezes pela autopiedade, pelo excesso de melindre e falta de tenacidade para viver nos dias de hoje, na sociedade líquida pós-moderna capitalista, seja lá o que isso signifique. Também não gosto de culpar a sociedade pelos meus fracassos, faz com que eu me sinta um chorão de barriga cheia. 2011 foi um bom ano? Digo que sim. Não acredito e não gosto destes escritos de auto-ajuda, sabedoria rasa feita para tapar buraco. Acho chato e pretensioso. Gosto mesmo é de reclamar, do desespero, e a partir disso encontro uma saída, reelaboro um caminho, repenso e sigo em frente. Por isso o ano de 2011 foi excelente. Eu queria mais, óbvio. Queria a ausência de problemas, fazer apenas o que eu gosto e ainda ser pago para isso, um mundo melhor, uma sociedade mais justa, a extinção do sertanejo universitário e por aí vai. Todas essas previsões de ano novo e retrospectivas de fim de ano são falsas. Sobrevivemos, e com certo esforço fizemos até algo mais, sonhamos também. Pretendia estender mais um pouco essa conversa mas faz um baita sol lá fora, o verão me chama. Feliz 2012!
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
OUR MAN IN PARIS
para Daniel distantes trovões
Através de uma decisão que nem lembro há quanto tempo fiz, disse que faria as coisas a minha maneira. Não a verbalizei a ninguém, apenas fiquei a matutá-la mentalmente, anuindo diversas vezes com a cabeça.
Esse seria, ou ainda é, um bom inicio de um conto. O estranho é que sentei aqui nessa cadeira amolada pra te escrever um email e me saiu isso como se fosse estória. Talvez lá no meu pensamento não haja mais como distinguir verdade e ficção, literatura ou vida. Vá lá; nem nós sabemos quem é essa tal de literatura. Mas decidi que iria te escrever, pedi uma água mineral da geladeira e coloquei um disco de jazz para rodar. Logo, logo entra o Dexter Gordon, Our Man In Paris. Porém, como não tinha ninguém pra me trazer água – com gás, por favor -, eu mesmo fui ali buscá-la. Meu caro, como eu estava dizendo, essa coisa de escrever é estranho, não dá vontade de fazer mais nada, só escrever. Não tenho vontade nenhuma de trabalhar, nem de deitar pra acordar amanhã cedo e vestir aquela roupa atrapalhada, e me fingir de coisa alguma. Nem sei se é fingimento, não sei o que é. Sei que o dia se contorce inteiro, agoniza, depois voa que eu mal caibo nele. Voa. É noite. É o banho. Meia noite. Acabou pra começar tudo de novo. Luto entre a vigília e o sono. A verdade é que eu não queria dormir. Nem agora, nem nunca.
As vezes eu também sinto uma vontade de só ficar lendo, sem parar, até gastar todas as folhas, deixar tudo em branco, zeradinho. Que elas peguem fogo. Gastar todo meu dinheiro – meu dinheiro inventado com caneta azul – numa montanha de livros. Inverossímil, veja você, é a vida, verdade mesmo é ficção. Eu gostaria de acabar esta carta com uma citação, mas deixa pra lá, já passou da hora, os livros estão quietos dormindo. Outra hora te escrevo.
Aquele abraço.
Através de uma decisão que nem lembro há quanto tempo fiz, disse que faria as coisas a minha maneira. Não a verbalizei a ninguém, apenas fiquei a matutá-la mentalmente, anuindo diversas vezes com a cabeça.
Esse seria, ou ainda é, um bom inicio de um conto. O estranho é que sentei aqui nessa cadeira amolada pra te escrever um email e me saiu isso como se fosse estória. Talvez lá no meu pensamento não haja mais como distinguir verdade e ficção, literatura ou vida. Vá lá; nem nós sabemos quem é essa tal de literatura. Mas decidi que iria te escrever, pedi uma água mineral da geladeira e coloquei um disco de jazz para rodar. Logo, logo entra o Dexter Gordon, Our Man In Paris. Porém, como não tinha ninguém pra me trazer água – com gás, por favor -, eu mesmo fui ali buscá-la. Meu caro, como eu estava dizendo, essa coisa de escrever é estranho, não dá vontade de fazer mais nada, só escrever. Não tenho vontade nenhuma de trabalhar, nem de deitar pra acordar amanhã cedo e vestir aquela roupa atrapalhada, e me fingir de coisa alguma. Nem sei se é fingimento, não sei o que é. Sei que o dia se contorce inteiro, agoniza, depois voa que eu mal caibo nele. Voa. É noite. É o banho. Meia noite. Acabou pra começar tudo de novo. Luto entre a vigília e o sono. A verdade é que eu não queria dormir. Nem agora, nem nunca.
As vezes eu também sinto uma vontade de só ficar lendo, sem parar, até gastar todas as folhas, deixar tudo em branco, zeradinho. Que elas peguem fogo. Gastar todo meu dinheiro – meu dinheiro inventado com caneta azul – numa montanha de livros. Inverossímil, veja você, é a vida, verdade mesmo é ficção. Eu gostaria de acabar esta carta com uma citação, mas deixa pra lá, já passou da hora, os livros estão quietos dormindo. Outra hora te escrevo.
Aquele abraço.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Casa de Ideias
Depois de uma breve parada - mudanças, novo emprego, LPIII, entre outras coisas - consegui dar uma atualizada no blog. Meus parabéns ao Pedro Gonzaga, um cara super gente boa, que está abrindo junto com o professor Cláudio Moreno a Casa de Ideias, um novo espaço cultural em Porto Alegre. Ainda não tenho o link do site deles, mas em breve divulgarei. Salve! e um abraço ao Daniel Rock Distante Trovão! continue resistindo, meu velho.
O mecanismo
Cristina olhou o relógio, ainda faltava muito para o término da aula. Pensou nisso com extensa sofreguidão como se sua vida fosse acabar antes que pudesse articular o pensamento seguinte. Respirava com dificuldade, fruto do cansaço e de um resfriado. Na verdade vivia a algum tempo em dificuldade. A timidez a ameaçava sempre feroz, e muitas vezes lhe condicionava as reações. Não temia as pessoas, mas sim o mecanismo obscuro que sorrateiramente trabalhava em seu corpo fustigado pela magreza. E ele não o fazia por uma questão de autopreservação, instinto bruto de sobrevivência, longe disso, fazia-o para castigá-la, para sentir o frêmito de vergonha que a ruborizava e as contrações estomacais que invariavelmente acabavam em diarréia. Porque ele - o mecanismo - julgava-se tão mais importante do que ela, o verdadeiro dono daquilo que ela, em matéria e espírito, sentia ao comer, dormir ou trepar, ainda que apenas se masturbasse ou suasse frio em privação. Por sua vez, paradoxalmente, ela o sentia como parte íntima de si mesma e como unidade distinta e autônoma, dotado de força maior que a sua. O mecanismo fora acalentado anos a fio, provavelmente como uma forma de punir-se, ou sistema de defesa, ou nem uma coisa nem outra. Era sua obscuridade misteriosa e sem propósito que a assolava, sua intimidade tão familiar e acolhedora que a aprisionava naquele vórtice cruel de vergonha e desamparo.
Quando o jovem colega, sentado a classe vizinha, na verdade uma mesa fazia ás vezes de trincheira entre ambos, tocou-lhe o braço e estendeu a mão segurando uma barra de chocolate pela metade, sentiu os maxilares se deslocando, arrastando os dentes uns contra os outros. Os músculos da face se contraíram deformando aquilo que deveria ser um sorriso. Entorpecida pelo sono que lhe caía sobre os ombros, acumulado de meses inteiros dormindo tarde da noite e acordando na primeira hora da manhã, Cristina mal conseguia perceber o que ocorria ao redor; seus colegas apagavam os olhos e escorriam das cadeiras lentamente até o chão, aninhando-se como roupa gasta e suja. O chocolate ali parado naquela mão enorme e um tanto intransigente, pois que não se movia e mantinha-se fixa estendendo a barra marrom enrolada em papel alumínio, exigindo uma resposta, mostrando-lhe que não podia ser ignorada, ainda que pudesse se travestir de outras coisas, de ofensas ou monstruosidades. A mão como se tomada de chocolate, dedo por dedo, longas barras de unhas molengas. Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Não foi que tivesse sentido fome ou desejado a morte daquele rapaz, ou a sua própria, foi o esgotamento, um instinto quase mecânico. A boca encheu-se de sangue, dedos e chocolate. Mastigou-os tomada de vontade e desejo, como se trepasse com eles. O jovem foi transpassado por uma dor muda. Contorcia-se ao chão com a boca escancarada, de lá, porém, nenhum som escapava. Com a destra segurava a mão mutilada enquanto o sangue lhe escorria vertiginoso pelo braço. A professora não percebera o que acabara de ocorrer ou, pior, dava a impressão de não estranhar o incidente. Talvez não o tivesse registrado no cérebro. Cristina levou a mão à boca a fim de que nenhum naco lhe escapasse. Mastigava-os com incontido prazer. O rosto, antes pálido, foi se banhando de uma luz avermelhada. Ajoelhou-se ao lado do colega afônico e pôs-se a comê-lo, primeiro o restante da mão, depois o braço e o peito. A essa altura a professora havia parado a aula e repreendia os alunos que não cessavam de escorrem das cadeiras.
Quando o jovem colega, sentado a classe vizinha, na verdade uma mesa fazia ás vezes de trincheira entre ambos, tocou-lhe o braço e estendeu a mão segurando uma barra de chocolate pela metade, sentiu os maxilares se deslocando, arrastando os dentes uns contra os outros. Os músculos da face se contraíram deformando aquilo que deveria ser um sorriso. Entorpecida pelo sono que lhe caía sobre os ombros, acumulado de meses inteiros dormindo tarde da noite e acordando na primeira hora da manhã, Cristina mal conseguia perceber o que ocorria ao redor; seus colegas apagavam os olhos e escorriam das cadeiras lentamente até o chão, aninhando-se como roupa gasta e suja. O chocolate ali parado naquela mão enorme e um tanto intransigente, pois que não se movia e mantinha-se fixa estendendo a barra marrom enrolada em papel alumínio, exigindo uma resposta, mostrando-lhe que não podia ser ignorada, ainda que pudesse se travestir de outras coisas, de ofensas ou monstruosidades. A mão como se tomada de chocolate, dedo por dedo, longas barras de unhas molengas. Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Não foi que tivesse sentido fome ou desejado a morte daquele rapaz, ou a sua própria, foi o esgotamento, um instinto quase mecânico. A boca encheu-se de sangue, dedos e chocolate. Mastigou-os tomada de vontade e desejo, como se trepasse com eles. O jovem foi transpassado por uma dor muda. Contorcia-se ao chão com a boca escancarada, de lá, porém, nenhum som escapava. Com a destra segurava a mão mutilada enquanto o sangue lhe escorria vertiginoso pelo braço. A professora não percebera o que acabara de ocorrer ou, pior, dava a impressão de não estranhar o incidente. Talvez não o tivesse registrado no cérebro. Cristina levou a mão à boca a fim de que nenhum naco lhe escapasse. Mastigava-os com incontido prazer. O rosto, antes pálido, foi se banhando de uma luz avermelhada. Ajoelhou-se ao lado do colega afônico e pôs-se a comê-lo, primeiro o restante da mão, depois o braço e o peito. A essa altura a professora havia parado a aula e repreendia os alunos que não cessavam de escorrem das cadeiras.
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