quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Casa de Ideias
Depois de uma breve parada - mudanças, novo emprego, LPIII, entre outras coisas - consegui dar uma atualizada no blog. Meus parabéns ao Pedro Gonzaga, um cara super gente boa, que está abrindo junto com o professor Cláudio Moreno a Casa de Ideias, um novo espaço cultural em Porto Alegre. Ainda não tenho o link do site deles, mas em breve divulgarei. Salve! e um abraço ao Daniel Rock Distante Trovão! continue resistindo, meu velho.
O mecanismo
Cristina olhou o relógio, ainda faltava muito para o término da aula. Pensou nisso com extensa sofreguidão como se sua vida fosse acabar antes que pudesse articular o pensamento seguinte. Respirava com dificuldade, fruto do cansaço e de um resfriado. Na verdade vivia a algum tempo em dificuldade. A timidez a ameaçava sempre feroz, e muitas vezes lhe condicionava as reações. Não temia as pessoas, mas sim o mecanismo obscuro que sorrateiramente trabalhava em seu corpo fustigado pela magreza. E ele não o fazia por uma questão de autopreservação, instinto bruto de sobrevivência, longe disso, fazia-o para castigá-la, para sentir o frêmito de vergonha que a ruborizava e as contrações estomacais que invariavelmente acabavam em diarréia. Porque ele - o mecanismo - julgava-se tão mais importante do que ela, o verdadeiro dono daquilo que ela, em matéria e espírito, sentia ao comer, dormir ou trepar, ainda que apenas se masturbasse ou suasse frio em privação. Por sua vez, paradoxalmente, ela o sentia como parte íntima de si mesma e como unidade distinta e autônoma, dotado de força maior que a sua. O mecanismo fora acalentado anos a fio, provavelmente como uma forma de punir-se, ou sistema de defesa, ou nem uma coisa nem outra. Era sua obscuridade misteriosa e sem propósito que a assolava, sua intimidade tão familiar e acolhedora que a aprisionava naquele vórtice cruel de vergonha e desamparo.
Quando o jovem colega, sentado a classe vizinha, na verdade uma mesa fazia ás vezes de trincheira entre ambos, tocou-lhe o braço e estendeu a mão segurando uma barra de chocolate pela metade, sentiu os maxilares se deslocando, arrastando os dentes uns contra os outros. Os músculos da face se contraíram deformando aquilo que deveria ser um sorriso. Entorpecida pelo sono que lhe caía sobre os ombros, acumulado de meses inteiros dormindo tarde da noite e acordando na primeira hora da manhã, Cristina mal conseguia perceber o que ocorria ao redor; seus colegas apagavam os olhos e escorriam das cadeiras lentamente até o chão, aninhando-se como roupa gasta e suja. O chocolate ali parado naquela mão enorme e um tanto intransigente, pois que não se movia e mantinha-se fixa estendendo a barra marrom enrolada em papel alumínio, exigindo uma resposta, mostrando-lhe que não podia ser ignorada, ainda que pudesse se travestir de outras coisas, de ofensas ou monstruosidades. A mão como se tomada de chocolate, dedo por dedo, longas barras de unhas molengas. Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Não foi que tivesse sentido fome ou desejado a morte daquele rapaz, ou a sua própria, foi o esgotamento, um instinto quase mecânico. A boca encheu-se de sangue, dedos e chocolate. Mastigou-os tomada de vontade e desejo, como se trepasse com eles. O jovem foi transpassado por uma dor muda. Contorcia-se ao chão com a boca escancarada, de lá, porém, nenhum som escapava. Com a destra segurava a mão mutilada enquanto o sangue lhe escorria vertiginoso pelo braço. A professora não percebera o que acabara de ocorrer ou, pior, dava a impressão de não estranhar o incidente. Talvez não o tivesse registrado no cérebro. Cristina levou a mão à boca a fim de que nenhum naco lhe escapasse. Mastigava-os com incontido prazer. O rosto, antes pálido, foi se banhando de uma luz avermelhada. Ajoelhou-se ao lado do colega afônico e pôs-se a comê-lo, primeiro o restante da mão, depois o braço e o peito. A essa altura a professora havia parado a aula e repreendia os alunos que não cessavam de escorrem das cadeiras.
Quando o jovem colega, sentado a classe vizinha, na verdade uma mesa fazia ás vezes de trincheira entre ambos, tocou-lhe o braço e estendeu a mão segurando uma barra de chocolate pela metade, sentiu os maxilares se deslocando, arrastando os dentes uns contra os outros. Os músculos da face se contraíram deformando aquilo que deveria ser um sorriso. Entorpecida pelo sono que lhe caía sobre os ombros, acumulado de meses inteiros dormindo tarde da noite e acordando na primeira hora da manhã, Cristina mal conseguia perceber o que ocorria ao redor; seus colegas apagavam os olhos e escorriam das cadeiras lentamente até o chão, aninhando-se como roupa gasta e suja. O chocolate ali parado naquela mão enorme e um tanto intransigente, pois que não se movia e mantinha-se fixa estendendo a barra marrom enrolada em papel alumínio, exigindo uma resposta, mostrando-lhe que não podia ser ignorada, ainda que pudesse se travestir de outras coisas, de ofensas ou monstruosidades. A mão como se tomada de chocolate, dedo por dedo, longas barras de unhas molengas. Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Não foi que tivesse sentido fome ou desejado a morte daquele rapaz, ou a sua própria, foi o esgotamento, um instinto quase mecânico. A boca encheu-se de sangue, dedos e chocolate. Mastigou-os tomada de vontade e desejo, como se trepasse com eles. O jovem foi transpassado por uma dor muda. Contorcia-se ao chão com a boca escancarada, de lá, porém, nenhum som escapava. Com a destra segurava a mão mutilada enquanto o sangue lhe escorria vertiginoso pelo braço. A professora não percebera o que acabara de ocorrer ou, pior, dava a impressão de não estranhar o incidente. Talvez não o tivesse registrado no cérebro. Cristina levou a mão à boca a fim de que nenhum naco lhe escapasse. Mastigava-os com incontido prazer. O rosto, antes pálido, foi se banhando de uma luz avermelhada. Ajoelhou-se ao lado do colega afônico e pôs-se a comê-lo, primeiro o restante da mão, depois o braço e o peito. A essa altura a professora havia parado a aula e repreendia os alunos que não cessavam de escorrem das cadeiras.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
O próximo
Após quase dez anos ele voltava para casa e desde o momento em que cruzara o portão branco enferrujado, sentiu como se nunca houvesse partido. Percebera de imediato que a casa, a vizinhança, o modo peculiar de ser das pessoas, jamais o abandonara. Havia respirado daquele ar, estava impregnado dele, assim como tudo que fizera fora dali. Dez anos e nenhuma visita, dez anos e o desejo de esquecê-los. Voltava para casa depois de dez anos como se tivesse interrompido uma vida para começar outra, e agora retomava aquela que havia deixado para trás, que julgara seccionada. Apenas ligou e disse que precisava voltar. A mãe não lhe fez perguntas, o silêncio foi a resposta. Um misto de alivio e pesar lhe oprimiram o peito. Não era um milagre que o número do telefone ainda fosse o mesmo, pois tudo lá permanecia igual. Ele voltava com o mesmo que partira, e nem poderia ser de outro jeito, pois há dez anos, quando partiu sem deixar vestígios, fugindo talvez de uma tragédia, de uma ameaça desumana e insondáve, não carregou nada consigo. E seu retorno se dava da mesma forma; as mãos vazias, uma jaqueta jeans surrada por cima dos ombros e uns sapatos marrons que pareciam emprestados. Era de se supor que os anos transcorridos houvessem sido pequenos e maus. Anos maus não eram coisa nova em uma vida tão cheia de misérias, mas anos pequenos não podia ser, porque todos os anos são iguais. Porém, aquele tempo que havia passado, que percorrera como se através de um túnel, tateando na escuridão, e se inscrevera em seu rosto, esses, haviam sido anos pequenos
Durante a viagem, no ônibus que o trouxera de volta, não conseguiu pregar o olho, hipnotizado pela paisagem monótona que emoldurava a estrada. Os campos verdes sem fim, ralos e improdutivos, as árvores cortadas, a magreza dos bois. Entre o cansaço e a ansiedade, sentia-se, enfim, liberto de um sentimento que não sabia ao certo como definir, pois não se tratava de medo ou orgulho, nem do fracasso. Aceitava tudo que ficara para trás e o que estava adiante e não possuía um nome. Desceu na rodoviária e pegou um ônibus de linha. A cidade havia mudado; mais prédio, mais carros, mais barulho. Tudo estava como que amontoado, oprimido pela falta de espaço. Contudo, na medida em que se afastava do centro, os bairros perdiam aos poucos a magnitude do concreto, ao invés de prédios, muitas casas e terrenos baldios. Reconhecia o lugar do qual havia desaparecido há dez anos e lhe parecia o mesmo
Desceu na parada que fazia esquina com a avenida que dava acesso a rua onde estava a casa. Caminhou três quadras para dentro e dobrou á esquerda. Da parada de ônibus até ali não avistara quase ninguém, um que outro vizinho e alguns cachorros. Imperava o silêncio imóvel do abandono. As casas eram rigorosamente as mesmas, feitas de tábuas largas de madeira, portões baixos com a pintura descascada e enferrujados. Ao entrar na rua logo avistou crianças jogando bola na calçada, usando tijolos como goleira. O som da algazarra, o vozerio estridente e caloroso, chegou-lhe até os ouvidos com o poder de despertar um órgão adormecido. Alegrou-se momentaneamente. E lá estava à casa bege de portão branco, parecia tão pequena como se aquela fosse a imagem de uma lembrança e não a coisa real. Cruzou o portão e caminhou pela lateral da casa em direção a porta dos fundos que dava para a cozinha. Não havia espanto em seu coração, nem impaciência. Sentia-o pulsar, nada mais. A porta estava aberta e á mesa, seu pai, a mãe, a irmã mais velha e um rapaz que ele desconhecia, ainda que fosse muito semelhante a ele quando mais jovem. Havia também um prato e uma cadeira vazia. Sentou-se, comeram, e dividiram o pão.
Durante a viagem, no ônibus que o trouxera de volta, não conseguiu pregar o olho, hipnotizado pela paisagem monótona que emoldurava a estrada. Os campos verdes sem fim, ralos e improdutivos, as árvores cortadas, a magreza dos bois. Entre o cansaço e a ansiedade, sentia-se, enfim, liberto de um sentimento que não sabia ao certo como definir, pois não se tratava de medo ou orgulho, nem do fracasso. Aceitava tudo que ficara para trás e o que estava adiante e não possuía um nome. Desceu na rodoviária e pegou um ônibus de linha. A cidade havia mudado; mais prédio, mais carros, mais barulho. Tudo estava como que amontoado, oprimido pela falta de espaço. Contudo, na medida em que se afastava do centro, os bairros perdiam aos poucos a magnitude do concreto, ao invés de prédios, muitas casas e terrenos baldios. Reconhecia o lugar do qual havia desaparecido há dez anos e lhe parecia o mesmo
Desceu na parada que fazia esquina com a avenida que dava acesso a rua onde estava a casa. Caminhou três quadras para dentro e dobrou á esquerda. Da parada de ônibus até ali não avistara quase ninguém, um que outro vizinho e alguns cachorros. Imperava o silêncio imóvel do abandono. As casas eram rigorosamente as mesmas, feitas de tábuas largas de madeira, portões baixos com a pintura descascada e enferrujados. Ao entrar na rua logo avistou crianças jogando bola na calçada, usando tijolos como goleira. O som da algazarra, o vozerio estridente e caloroso, chegou-lhe até os ouvidos com o poder de despertar um órgão adormecido. Alegrou-se momentaneamente. E lá estava à casa bege de portão branco, parecia tão pequena como se aquela fosse a imagem de uma lembrança e não a coisa real. Cruzou o portão e caminhou pela lateral da casa em direção a porta dos fundos que dava para a cozinha. Não havia espanto em seu coração, nem impaciência. Sentia-o pulsar, nada mais. A porta estava aberta e á mesa, seu pai, a mãe, a irmã mais velha e um rapaz que ele desconhecia, ainda que fosse muito semelhante a ele quando mais jovem. Havia também um prato e uma cadeira vazia. Sentou-se, comeram, e dividiram o pão.
terça-feira, 5 de julho de 2011
junho
O silêncio nunca é pleno, há sempre algum ruído lutando contra o vazio. Ele é presença e ausência. O homem parado ao lado do poste, debaixo da chuva, nada trazia além das roupas do corpo. Um pouco de sangue lhe manchava as calças. O passado é um enferrujado arrastar de sapatos ressoando em nossos ouvidos.
Pela janela eu o observava. Sabia que ele não parava ali por acaso, que era esse o seu intento; que eu o mirasse lá do alto, da segurança tranqüila e inócua do apartamento, e me sentisse estranhamente açoitado pela sua imagem, que fosse da indiferença ao ódio, depois ao temor. Ele ficava ali parado até a polícia chegar e decidir-se ou por levá-lo, ou por surrá-lo diante da janela para que eu os visse cumprindo com o seu dever, e para que meus olhos vertessem sangue enquanto eu dormia. E por mais que eu tentasse, por mais que sentisse que aquele homem não me pertencia tanto quanto os carros estacionados na rua, algo nos conectava de uma forma silenciosa e atroz. Podia sentir sua presença, as gotas caindo em seu rosto. Calcei os sapatos, peguei o casaco e saí. O frio úmido da maçaneta correu-me o braço e entranhou-se debaixo da pele deixando-me o coração numa espécie de câimbra. Do hall de entrada do prédio eu já podia vê-lo imóvel debaixo da luz esmaecida do poste. Abri o portão e deixei-o bater. Queria ouvir o som de ferro contra ferro. Distava menos de dez passos do homem. Mais do que vê-lo, podia sentir em mim seu olhar como um hálito quente a me atrair. Usava jaqueta de nylon azul marinho e calças jeans, os sapatos eram escuros e surrados. O rosto estava mal barbeado, contudo não parecia ameaçador, tampouco havia ódio em seus olhos que percebi estrábicos.
- o que é que tu quer?
O homem nada respondeu.
- É vingança?
- Não.
- Então é o que?
- Eu vim lavar as tuas mãos.Olhe bem; não estão sujas?
E logo minhas mãos tornaram-se vermelhas e delas escorriam lágrimas espessas. E eu preciso morrer um pouco, disse o homem enquanto tirava um punhal da cintura e o depositava na minha mão. Segurou-me o pulso com firmeza e fixou o olhar esquivo em minha alma. Senti o líquido quente em abundância afogando-me o braço. O homem tombou na sarjeta debatendo-se como se fosse um peixe retirado da água. Pedaços do seu corpo diluíam-se no pequeno córrego que se formara com a chuva. A rua inteira foi tornado-se vermelha como se fosse uma veia aberta, desde as árvores enraizadas no concreto até os cachorros nos pátios. Enfim o corpo desapareceu e a chuva parou. Tive a impressão de não ouvir barulho algum. O silêncio era tanto que parecia ensurdecedor, nada vibrava ou emitia som. Voltei aflito para o apartamento. Fui ao quarto de meu filho e encostei a cabeça em seu peito; ouvi seu coração de criança sonhando. Sentei-me no chão ao lado da cama e contemplei minhas calças manchadas de sangue.
Pela janela eu o observava. Sabia que ele não parava ali por acaso, que era esse o seu intento; que eu o mirasse lá do alto, da segurança tranqüila e inócua do apartamento, e me sentisse estranhamente açoitado pela sua imagem, que fosse da indiferença ao ódio, depois ao temor. Ele ficava ali parado até a polícia chegar e decidir-se ou por levá-lo, ou por surrá-lo diante da janela para que eu os visse cumprindo com o seu dever, e para que meus olhos vertessem sangue enquanto eu dormia. E por mais que eu tentasse, por mais que sentisse que aquele homem não me pertencia tanto quanto os carros estacionados na rua, algo nos conectava de uma forma silenciosa e atroz. Podia sentir sua presença, as gotas caindo em seu rosto. Calcei os sapatos, peguei o casaco e saí. O frio úmido da maçaneta correu-me o braço e entranhou-se debaixo da pele deixando-me o coração numa espécie de câimbra. Do hall de entrada do prédio eu já podia vê-lo imóvel debaixo da luz esmaecida do poste. Abri o portão e deixei-o bater. Queria ouvir o som de ferro contra ferro. Distava menos de dez passos do homem. Mais do que vê-lo, podia sentir em mim seu olhar como um hálito quente a me atrair. Usava jaqueta de nylon azul marinho e calças jeans, os sapatos eram escuros e surrados. O rosto estava mal barbeado, contudo não parecia ameaçador, tampouco havia ódio em seus olhos que percebi estrábicos.
- o que é que tu quer?
O homem nada respondeu.
- É vingança?
- Não.
- Então é o que?
- Eu vim lavar as tuas mãos.Olhe bem; não estão sujas?
E logo minhas mãos tornaram-se vermelhas e delas escorriam lágrimas espessas. E eu preciso morrer um pouco, disse o homem enquanto tirava um punhal da cintura e o depositava na minha mão. Segurou-me o pulso com firmeza e fixou o olhar esquivo em minha alma. Senti o líquido quente em abundância afogando-me o braço. O homem tombou na sarjeta debatendo-se como se fosse um peixe retirado da água. Pedaços do seu corpo diluíam-se no pequeno córrego que se formara com a chuva. A rua inteira foi tornado-se vermelha como se fosse uma veia aberta, desde as árvores enraizadas no concreto até os cachorros nos pátios. Enfim o corpo desapareceu e a chuva parou. Tive a impressão de não ouvir barulho algum. O silêncio era tanto que parecia ensurdecedor, nada vibrava ou emitia som. Voltei aflito para o apartamento. Fui ao quarto de meu filho e encostei a cabeça em seu peito; ouvi seu coração de criança sonhando. Sentei-me no chão ao lado da cama e contemplei minhas calças manchadas de sangue.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Mrs. Parker

Mrs. Parker tem uma página na internet, escreve poesias e críticas literárias. A foto do seu perfil lembra a de uma pin-up; cabelos curtos e negros, ar intelectual e idéias sedutoras. O lay-out do site é sóbrio, elaborado em detalhes, nada destoa, nem formas, nem cores. Só publica quando tem vontade e não exclui os comentários pejorativos, eles a divertem. Mrs. Parker não tem coluna de seguidores, achou desnecessária aquela ferramenta mal enjambrada de aferição de popularidade.
- E quem se importa com isso? Sugere com ar blasé. E quem se importa com isso?
Mrs. Parker zomba da minha insegurança. Ao vê-la tão cheia de si pensei em fazer o mesmo no meu blog, arrancar a coluna de seguidores. Afinal, quem precisa de seguidores se nem eles me lêem? O que eles significam para o meu ego faminto de aclamação pública? Ter seguidores soa um pouco como um messianismo fascista. Mussolini e Antônio Conselheiro é que possuíam seguidores. Eu quero ser lido, basta. Porém, na mesma medida em que me senti tentado a excluí-los, tive medo. Um medo obscuro e infundado, desses irracionais. Como assim excluir os seguidores? Meus seguidores! Com tanta gente no mundo para ser deletada, logo eles?
Mrs. Parker, segundo boatos, alcançou um tipo de status intelectual que já não precisa de nada além de seus próprios comentários, dos teóricos russos, de Borges, Pessoa e Shakespeare. Diz que a literatura lhe basta. Nada mais. Nem mesmo sexo ou coquetéis em noites de autógrafo. Olho para os meus vinte seguidores com um misto de perplexidade e paixão. Vinte. E dentre eles estou eu a seguir-me como se fosse um duplo, leitor deste tal Marcelo, que também é um outro. Não posso excluí-lo.
- Eu comeria carne humana, ela me disse. Maldita! Eu a seguiria se pudesse.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Bassini Letters
...andei rasbiscando umas linhas.Ah! o tempo.
Bassini Letters
Acordei com a impressão de que já havia despertado naquela manhã, como se estivesse acordando pela segunda vez. Uma caixa dentro da outra. E era noite. Apoderou-se de mim um desassossego. E se por fim eu houvesse me dado conta de que essa vida não é a minha, que esses lugares, essas coisas, não cabem em mim? Nada disso me pertence. Talvez fosse esse meu desejo mais secreto; ter outra vida só pra vivê-la de paixões, deixar que se consuma essa vontade de não ser mais eu, de não estar mais aqui. Não sentir mais o ranço das horas, nem o peso dos dias que engolem vidas e deságuam sempre no mesmo recomeçar acabrunhado. Pensar que todo amor é possível, logo válido, que nada termina tão somente porque nos tornamos íntimos demais, e sem mistérios.
Acordei com essa impressão de embriaguez a seco e cãibras nas pernas. Pois agora não quero dormir, tenho medo de despertar desse torpor, descobrir que esse sonho é tudo o que resta pra sonhar.
Desperta o velho ancorado navio e deixa-me á deriva no mar.
Bassini Letters
Acordei com a impressão de que já havia despertado naquela manhã, como se estivesse acordando pela segunda vez. Uma caixa dentro da outra. E era noite. Apoderou-se de mim um desassossego. E se por fim eu houvesse me dado conta de que essa vida não é a minha, que esses lugares, essas coisas, não cabem em mim? Nada disso me pertence. Talvez fosse esse meu desejo mais secreto; ter outra vida só pra vivê-la de paixões, deixar que se consuma essa vontade de não ser mais eu, de não estar mais aqui. Não sentir mais o ranço das horas, nem o peso dos dias que engolem vidas e deságuam sempre no mesmo recomeçar acabrunhado. Pensar que todo amor é possível, logo válido, que nada termina tão somente porque nos tornamos íntimos demais, e sem mistérios.
Acordei com essa impressão de embriaguez a seco e cãibras nas pernas. Pois agora não quero dormir, tenho medo de despertar desse torpor, descobrir que esse sonho é tudo o que resta pra sonhar.
Desperta o velho ancorado navio e deixa-me á deriva no mar.
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