domingo, 19 de junho de 2016

[poema]

Sentei-me à praça, frente aos seixos, sem fantasias.
Olhar vindo de longe,
As roupas roubadas daqueles que me venceram.
Elaborei um plano no caderno e sentado, ainda sentado,
Troquei-o pela companhia dos pássaros.
Lembro que fazia sol, que havia paredes e bancos,
Lembro de socorrer a pedra, uma árvore,
Lembro de esquecer um punhado de coisas.
Não esqueci a vida, nem os entes vivos,
Não esqueci a identidade do mundo,
O modo caprichoso quando nos olha,
O modo violento quando grita,
Quando grita o mundo seu amor,
Seu amor grande e violento.
Não levantei do banco,
Não troquei meus propósitos.
Mudei como mudam as árvores,
As folhas caindo ao chão,
O trabalho silencioso das raízes.
E consegui ver que nas paradas
As crianças ainda brincam.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

O vento é a alma das coisas


Como o olho que vê a si mesmo
Por dentro de um vendaval
Dando as costas.

O olho que viu teu desejo transpirado
Nas mãos de outro
Uma fome com gosto de morte

Olha, olha
O cansaço venceu a aurora
Um incêndio do lado de lá
A água invadindo a cidade

Sonhamos o tempo
Sentados na penumbra da memória
Olhando o silêncio
Enrugar nossas mãos

Meu rosto pensa
o gosto rubro da tua face
Uma última vez
Depois ruminações estéreis
Por fim, o clarão que antecipa o nada

domingo, 27 de março de 2016

Aos homens

Quero encontrar meus amigos
Que moram no tempo,
Ouvir suas vozes insurgentes
No brusco entardecer.

Quero encontrá-los dentro da chuva,
Nas pegadas da cidade que festeja seus mortos,
Cobrir-lhes o rosto com madeira escura
E repousar em seus braços as preces que me ofertaram.

Quero embalar nossos sonhos
Em nuvens brancas e sonolentas,
Reencontrá-los no jardim na memória,
De costas para o vento e as mãos limpas
Com as quais um dia sonharam.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A hiperpoesia
Virá do sangue negro
Das mãos negras
Como um receituário de bênçãos
Bordado em roupa de festa,
Um estandarte da nossa cor
Cujo rosto não se esconde
Do calor infinito de janeiro

domingo, 3 de janeiro de 2016

dois mil anos

Ouvi a música das árvores
deitado na hora mais cinza do ano –
em que homens e trens davam as mãos.
cantando a descoberta do amor,
pano puído sobre um trono de madeira,
entregando-se à velha cidade virgem -
aqui onde caio refém de feitiços,
na negação da colheita,
no grito vazio que me bate o rosto e rói os ossos,
fiel as tuas súplicas,
prostrado em tuas pernas,
na hora mais suave da vida.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Pequena lua do oriente

Minhas calças puídas,
esses homens, essas mulheres:
Fantasmas! Fantasmas!

No ventre do furacão,
deusa dos olhos tropicais,
dos olhos entorpecidos,
da névoa que corrompe o sangue.
Amante minha, poesia.
Rascunho das músicas
que os sonhos condenam.

Tranquilos são os dias que passamos em guerra
a esperar a pequena lua do oriente.

sábado, 28 de novembro de 2015

poema para nossos pés descalços

...para Izabella

No verso do espaço
em branco,
Os olhos de Izabella,
De feitiço e fogo.

Tua voz negra rompe
A nuvem do silêncio,
Pele consciente
De seu toque mais puro,
Com dentes profundos
Mastigas a piedade,
Faz respirar a máquina
No corpo-liberdade.

Nos teus olhos
Nossos pés descalços
Caminham.