segunda-feira, 9 de março de 2015

Tempus Autumnus

Quando a cidade
Esvazia o espírito
E ouve o rio,
Pássaros tecem
O fim do verão.

Cessa a passagem febril,
A palavra irrompe sóbria
No imprescindível lugar
E ajusta a linha melódica
Do poema.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Música


para Madeleine Peyroux

Existe, há tempos, um rio
correndo dos campos
até o asfalto,
cobrindo a cidade.

Das ruas onde navegam corações,
veias cintilantes confusas,
cães ladrando,
motores.

Eu vou rua abaixo,
Liberta-me!
Eu desço o rio,o ventre rasgado,
as calças sujas de saudade;
Eu desço o rio de pedras,
um corpo de olhos abertos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Geometria

Estabelecer as partes contrárias
Recordar para esquecer
Como um desmanche
De sucatas vivas
Membros seccionados
Homocinética para homens
De lata.

Então
Desenterrar essa estranha
Tristeza que me sorri.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

congestionado

Um pesadelo remoto
múmias e instrutores de yoga
num céu nublado

Um terremoto pesado
cidades inteiras
de afetos racionados

Carona vencida
Motoboy expresso
transformado samurai
no ronco monocromático

No trânsito
diáspora dos sentimentos:
besouros
lápis
dados
garrafas
plástico
espectros

Cristãos e larápios
monges e morcegos
infalíveis
em suas rezas
assim como azeite de oliva
potes de conserva
e derivados da dieta

No fim
detergente para as panelas
gorduras e outras piorréias
que afligem o compositor
(sem olho e amedrontado)
que se quer desconhecido
porém ilustre
soldador da lua.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Talvez Chuva

A chuva fala línguas ancestrais
que inundarão as peças da casa.
Viver no teto é opção.
E nem precisaremos vender o endereço.

Contas e ameaças de morte continuarão
chegando pelas nuvens.
O resto sobreviverá nas malas desfeitas
(Discos Cupins Facas )
confundindo dor e esperança.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O escuro

No escuro do escuro, tateava objetos, órgãos que se jogavam uns contra os outros. Espera, repetia a voz. As coisas não se repetem. A música sem rima é filha do silêncio. Eu quero o teu desejo - o beijo sussurrado - quero-o solto. E se me repito, desculpe, repete em voz alta: do meu querer, leva um pedaço contigo. A parte que viveu dentro do beijo. Deixa-me descansar ali. Se tudo desaparece na imagem invertida do espelho, derrama em mim teu cheiro. Se não voltares mais, descansa em mim teu cheiro.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Cabeças falantes

Foi de garoto que veio o gosto. No chiqueiro, ao invés de porcos, criava cabeças. Umas cabeças miúdas com vento de nordeste. Cabecinhas de alfinete. Deixava que o sol pegasse na palha seca e com um pouco de música e fogo elas surgiam espontaneamente. Depois de um tempo, já espichado, criava cabeças falantes que serpenteavam palavras enquanto rapinavam quem parasse para escutá-las. Essas ele deixou em contato com a televisão. Todavia, verborrágicas e gatunas, lhe trouxeram problemas em demasia. Por acaso, mas só por acaso, um dia as cabeças comeram os versos de um poema caído no chão. No ato pegaram delírio. Transformadas em esfinges, devoravam leitores delinquentes antipoéticos.