Sucumbe ao trabalho do verme. O peito trêmulo, a voz agarrada num fio. Nem tudo se esvai nessa tristeza. Pior é sobreviver. Vê-la esfumada no tempo como se não tivesse existido. E ela é tudo. Todo o sentimento, tudo que perdemos, os pedaços, pessoas, o lugar onde padecem as palavras. Ninguém pode mudar as estações, as folhas caem sem poder escolher. As lágrimas retornam aos olhos, o céu se refaz. Irei reescrever uma terra sem mortes, uma mansarda – pedra sem chaga. Um eu destronado, outro em mim, refém. Choverá nos campos e eu ressuscitarei banhado nesse sonho até a tua casa. Abro a grade enferrujada e subo as escadas, joelhos esfolados no perdão.
Só então perceberei o rosto macilento e cansado...
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
sábado, 6 de setembro de 2014
o nó
Tenho esperado que desate o nó. Corro o risco de ficar à deriva, de não fixar-me aqui no bloco de pedra – de não estar neste corpo.
Daqui alguns anos terei o rosto macilento e cansado. O tempo é elástico só na cabeça de quem não o possui. Entre o mundo e as pequenas misérias, elejo as minhas. E nisso reside minha ruína. Há a escolha correta (a própria escolha). A força que direciona, diz o que é. Entretanto, existe a perna, a outra perna que me sustenta. A terceira. Ela é o corpo. Todo o corpo. O resto é osso. Mas essa perna é forte, tem a essência do movimento – crua, violenta, instável. Ela é carne. A força estranha que consome e navega. Do outro lado o livro. A luz que cura. Preciso ser curado para seguir a palavra, verter sangue. É a voz do livro contra o movimento da perna. Um evento que não pode ser evitado. Ele irá acontecer - precisa acontecer, assim manda a natureza. Dizer sim e negá-lo, dizer sim e negá-lo. Tudo dentro, tudo ali crescendo e secando, morrendo rápido, lentamente renascendo. Sou apenas este corpo. Não há revelação. Esse corpo sagrado que sofre mutilações, que nega o que lhe há de mais humano. Só a cabeça vive. Devo negá-lo. Dizem que essa vida acaba como se nem tivesse começado. Porém, é apenas no fim que percebemos. É só quando o tempo se gasta, quando a coragem termina. Um dia repeti tudo que fizera no dia anterior e assim fui aprendendo os gestos e repetindo-os sem saber o que fazia.
Daqui alguns anos terei o rosto macilento e cansado. O tempo é elástico só na cabeça de quem não o possui. Entre o mundo e as pequenas misérias, elejo as minhas. E nisso reside minha ruína. Há a escolha correta (a própria escolha). A força que direciona, diz o que é. Entretanto, existe a perna, a outra perna que me sustenta. A terceira. Ela é o corpo. Todo o corpo. O resto é osso. Mas essa perna é forte, tem a essência do movimento – crua, violenta, instável. Ela é carne. A força estranha que consome e navega. Do outro lado o livro. A luz que cura. Preciso ser curado para seguir a palavra, verter sangue. É a voz do livro contra o movimento da perna. Um evento que não pode ser evitado. Ele irá acontecer - precisa acontecer, assim manda a natureza. Dizer sim e negá-lo, dizer sim e negá-lo. Tudo dentro, tudo ali crescendo e secando, morrendo rápido, lentamente renascendo. Sou apenas este corpo. Não há revelação. Esse corpo sagrado que sofre mutilações, que nega o que lhe há de mais humano. Só a cabeça vive. Devo negá-lo. Dizem que essa vida acaba como se nem tivesse começado. Porém, é apenas no fim que percebemos. É só quando o tempo se gasta, quando a coragem termina. Um dia repeti tudo que fizera no dia anterior e assim fui aprendendo os gestos e repetindo-os sem saber o que fazia.
domingo, 6 de julho de 2014
A copa do mundo é nossa
Sentou para ver o jogo. Era Copa do Mundo, mas não parecia. Uma formiga circulava ao redor da xícara de café. Ele desejou que ela morresse queimada ao encostar na xícara. Imaginou a cena de diversas maneiras, porém todas lhe pareceram inverossímeis. Pensava muito em morte. Na verdade, ao longo do dia, desejava muitas vezes que muitas pessoas morressem. Todavia, esses pensamentos recorrentes não eram coisa real, careciam de maldade. Era uma raiva. Quase nada. Não se julgava má pessoa.
Levantou-se para ir à cozinha, porém antes entrou no quarto do escritório e viu Hannah deitada no sofazinho com um livro aberto no peito. Esticou o pescoço a fim de ver o título, depois olhou a estante repleta de livros, alguns caindo das prateleiras, uma pilha no chão. Achou aquilo estúpido, balançou a cabeça. Serviu-se de ambrosia. Ao retornar à sala teve o impulso de olhar mais uma vez Hannah. Continuava deitada. O livro aberto sobre o peito e o braço largado no chão. A cabeça pendia um pouco para a esquerda. Não ressonava ou arfava, seu corpo todo era silêncio. Notou a boca entreaberta. Pensou em tocá-la para conferir a temperatura, talvez... Desistiu.
Sentou-se para continuar a ver o jogo, afinal era Copa do Mundo. A formiga jazia ao lado da xícara como se fosse um pontinho preto, enroscada em si mesma. Parecia sujeira. Naquele momento soube que era uma pessoa ruim.
Levantou-se para ir à cozinha, porém antes entrou no quarto do escritório e viu Hannah deitada no sofazinho com um livro aberto no peito. Esticou o pescoço a fim de ver o título, depois olhou a estante repleta de livros, alguns caindo das prateleiras, uma pilha no chão. Achou aquilo estúpido, balançou a cabeça. Serviu-se de ambrosia. Ao retornar à sala teve o impulso de olhar mais uma vez Hannah. Continuava deitada. O livro aberto sobre o peito e o braço largado no chão. A cabeça pendia um pouco para a esquerda. Não ressonava ou arfava, seu corpo todo era silêncio. Notou a boca entreaberta. Pensou em tocá-la para conferir a temperatura, talvez... Desistiu.
Sentou-se para continuar a ver o jogo, afinal era Copa do Mundo. A formiga jazia ao lado da xícara como se fosse um pontinho preto, enroscada em si mesma. Parecia sujeira. Naquele momento soube que era uma pessoa ruim.
sexta-feira, 4 de julho de 2014
terça-feira, 3 de junho de 2014
A verdade e outras encenações
Banheiro – interna.
Espaço branco minúsculo, sem pia, vaso sanitário da mesma cor das paredes. A personagem entra rápido, levanta a tampa do vaso, a minissaia e senta. Deixa a porta entreaberta. O fluxo de urina é longo e prazeroso, traz alivio à medida que sai. Ela pensa, porém um pensamento não tem forma, e ouve Lou Reed cantando Coney Island Baby. Lembra-se da outra personagem, que ficou na sala, e que deveria dizer uma fala do roteiro. Nada lhe vem à mente. Em voz alta:
- Os pensamentos não têm forma. Nunca saberemos o que dizer e para quem dizer o quê. Na verdade tudo já está dito.
Destaca um pedaço de papel higiênico, se limpa e sai sem puxar a descarga.
Espaço branco minúsculo, sem pia, vaso sanitário da mesma cor das paredes. A personagem entra rápido, levanta a tampa do vaso, a minissaia e senta. Deixa a porta entreaberta. O fluxo de urina é longo e prazeroso, traz alivio à medida que sai. Ela pensa, porém um pensamento não tem forma, e ouve Lou Reed cantando Coney Island Baby. Lembra-se da outra personagem, que ficou na sala, e que deveria dizer uma fala do roteiro. Nada lhe vem à mente. Em voz alta:
- Os pensamentos não têm forma. Nunca saberemos o que dizer e para quem dizer o quê. Na verdade tudo já está dito.
Destaca um pedaço de papel higiênico, se limpa e sai sem puxar a descarga.
domingo, 25 de maio de 2014
Vampiro
Então, diante de uma plateia pouco empolgada, recebi de minhas próprias mãos o Oscar de melhor ator coadjuvante. Em silêncio me perguntava se este outro eu que me sorria azedo, era o melhor protagonista ou se estávamos ambos destinados à figuração. Entretanto, na hora do discurso, improvisei:
Agora, a essa hora, copulam o céu e a terra, corpos dançam boleros do desamor, castos juram vinganças de sangue e cegos fazem promessas que jamais poderão cumprir. Pois essa é a natureza dos amantes.
Depois, Caetano Veloso cantou:
"Você é uma loucura em minha vida,
Você é uma navalha para os meus olhos,
Você é o estandarte da agonia que tem a lua e o sol do meio-dia."
Por isso, eu sou o vampiro.
Agora, a essa hora, copulam o céu e a terra, corpos dançam boleros do desamor, castos juram vinganças de sangue e cegos fazem promessas que jamais poderão cumprir. Pois essa é a natureza dos amantes.
Depois, Caetano Veloso cantou:
"Você é uma loucura em minha vida,
Você é uma navalha para os meus olhos,
Você é o estandarte da agonia que tem a lua e o sol do meio-dia."
Por isso, eu sou o vampiro.
sexta-feira, 23 de maio de 2014
sobre nós
Enfim, sós.
Pelo vidro iluminado a chuva escorre,
Debaixo do poste, cultivo ideias sobre nós.
Em margens opostas esperamos.
A roupa aperta, a palavra falta,
Não são apenas anos, é o tempo.
Quando esse futuro virar passado,
Não bastará.
Porque tua imagem - olhos que me sentem,
Terá se diluído em possibilidades,
Páginas em branco.
Pelo vidro iluminado a chuva escorre,
Debaixo do poste, cultivo ideias sobre nós.
Em margens opostas esperamos.
A roupa aperta, a palavra falta,
Não são apenas anos, é o tempo.
Quando esse futuro virar passado,
Não bastará.
Porque tua imagem - olhos que me sentem,
Terá se diluído em possibilidades,
Páginas em branco.
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