terça-feira, 13 de maio de 2014
A cidade também é feita de pegadas
Caminhando pela cidade, percebi, com certo alívio, que não somos este lugar que ocupamos, nem ele é o mesmo para aqueles que o compartilham conosco. Não somos, tampouco estamos juntos. Partilhamos o ínfimo dessa substância cujo nome convencionamos chamar realidade, talvez lhe caísse melhor concretude. Incapaz de compreender os outros, não compreendo a vida, pois um movimento implica no outro como se fossem pequenas caixas dentro de outras maiores, ou o cubo mágico e sua dinâmica integrada. Todavia, não sou pessimista, apenas desconfio que venho falhando por existir pouco. Igualmente não desejo ser leviano. Tomar café, ler livros e escrever frases não constituem em si prova de humanidade, ou prova de uma coisa qualquer, um sentido objetivo. A vida, ás vezes, pode ser apenas um suspiro preguiçoso ou uma tarde de sono despreocupada. Não suporto deixar-me caído no sofá, de boca entreaberta, sentindo o vagar incipiente das horas. Porém, de modo arbitrário, o tempo me ultrapassa. O sol sucumbe à noite e o cosmos segue impenetrável seu ritual de morte. Então, dou a mim esta tarefa de permanecer de olhos abertos entre a descrença e a fé, gestando uma espécie de renascimento. Atento ao movimento sutil das palavras.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Os Indesejados
Creio que foi numa terça-feira. O dia estava quente, sol de arder a pele. Não conseguia me concentrar na reunião, o barulho da máquina de cortar grama ocupava todo o espaço. As reuniões da escola eram um massacre. Porque havia me tornado professor? Poderia ter sido médico, assaltante de banco, zelador. A memória não deixava recordar. Não parecia terça-feira, nem que estávamos na escola, nem que fosse grama sendo cortada. A semana começava ali naquela reunião batendo ferro com violência. Era a violência do dia. Os indesejados estavam por todos os lados, proliferando em abundância pelas cercanias do bairro, cuidando carros, pedindo cigarros. Restava-me apenas entregar a raiva e o desgosto às horas.
Desci para tomar um café e encontrei a mesa vazia. Farelos indicavam que eu havia chegado tarde. Sobrara um pouco de café preto. Os demais professores se acotovelavam na salinha contigua ao saguão, a única com ar condicionado. A reunião terminara, então fui pegar o carro na praça em frente à escola. O guardador de carro me chamou de irmão e pediu um trocado. Já o conhecia, talvez até soubesse seu nome, creio que se referia assim a todos: irmão. Não tinha importância. Disse de forma ríspida, porém, acredito que sem raiva, que não era seu irmão. O que teria mudado se eu simplesmente assentisse, ou, talvez, para reforçar aquilo que ofereciam a ele, tivesse apenas ignorado? Neguei também o dinheiro e bati a porta do carro. Em seguida ouvi um murmúrio, um ruminar de palavras: vou te enfiar a faca no bucho. Não sei ao certo. Deduzi que fosse algo como um dia te enfio a faca no bucho. Uma ameaça. Na hora tive mais raiva do que temor. Poderia ter saído do carro e lhe dado umas bofetadas. Era menor do que eu e magro do uso de drogas. Um alucinado. Mais tarde diria a mim mesmo que não havia lhe negado o direito de me chamar de irmão pelo simples fato de sermos negros. Será que ele havia me dito aquilo por isso? Por uma solidariedade de raça? Na hora nada me veio além de um desgosto misturado com impaciência, com um estar cheio disso, dos intrusos, dos que cobram e fingem estar pedindo. Entretanto, achava que comigo sua simpatia era mais forçada porque deveria parecer natural a existência de um laço entre nós. Bati a porta do carro. Quem ele pensava que era para me ameaçar?
Fui até o shopping almoçar ainda que não gostasse da impessoalidade luminosa do lugar. Todavia, por preguiça de estacionar, caminhar, procurar outro lugar para tomar café e ir ao banco, acabava indo lá. Essa era a armadilha idiota do shopping: oferecer comodidade aos acomodados da vida. Encontrei Camila. Não estava com rugas e papadas horrendas como se tivesse passado os anos bebendo e fumando por noites a fio. Naturalmente lhe faltava na tez o brilho característico da juventude, entretanto e, sobretudo, continuava linda. Fazia mais de quinze anos que não a via. Trazia na cabeça a lembrança do nosso último encontro: ela me abandonara. Fiquei sozinho no restaurante. Não voltou mais. Era ridículo pensar naquilo, contudo, de fato era a única coisa que restara dela. Cumprimentou-me com pouco entusiasmo, como se não estivesse conseguindo atribuir um significado a minha figura. Tenho certeza de que também pensou única e exclusivamente naquela noite. Dissemo-nos as coisas habituais: que quase não havíamos mudado, que fazia tempo, ah! a vida. Enfim, tudo bem. Ela tinha um filho. Não sou casado. Não tenho filhos. Vamos tomar um café? Tenho que pegar o Guilherme daqui a pouco. Vamos nos encontrar outra vez. Eu preciso te dizer um negócio: Vamos pra cama de novo. Eu não esqueci, só mais uma vez. Isso não tem importância. Vamos pra cama. Nós éramos jovens. Tchau. Me liga. Não. Um dia desses, quem sabe.
Camila partiu de olhos semicerrados após ter me negado pela segunda vez. Tudo foi tão rápido. Na cafeteria ela pediu um espresso enquanto tomei um pingado; de relevante dissemos pouco. Não havia uma pergunta formulada, concreta, que fosse traduzível em palavras. Ela não ia encontrar ninguém, continuava fútil como sempre fora. Comprar lhe emprestaria a falsa impressão de saciedade. É o que todos fazemos. Podia comprar qualquer coisa e aquilo lhe ocuparia um tempo de vida, meia hora, talvez duas ou mais se considerasse também o quanto gastaria até chegar em casa. Pegaria nas mãos o que havia comprado, fosse roupa, um livro ou bolsa, e o contemplaria com uma espécie de súplica desencantada e inútil. Depois o guardaria no território das coisas a espera da oportunidade de serem utilizadas.
Creio que devia ter feito mais alguma coisa antes de voltar para casa, talvez mais uma reunião em outra escola. Uma vez em casa, fechei todas as janelas e deitei no tapete da sala. Nunca fui nenhum fã de Belchior, porém a letra de uma música veio á cabeça. Tentei cantarolar: “se você me perguntar... de olhos abertos eu lhe direi”. Talvez o mendigo fosse me matar dali a dois. O mendigo irmão. “Amigo, eu me desesperava”.
Pela manhã, quando acordei, não pensei em que dia era e nem no que deveria fazer. Peguei o carro e rodei mais de uma hora, talvez muito mais, fazendo um esforço para recordar o lugar. Tinha certeza que podia encontrá-lo apenas com o que guardava na memória. Enfim estacionei o carro em frente a uma casa geriátrica. Ela era grande e antiga, repleta de árvores ao redor. Tinha um aspecto quase bondoso. Entrei na casa e na recepção perguntei por Elizabete. Chamaram uma mulher que me levou até a varanda onde duas senhoras conversavam. No breve caminho que conduzia até lá me questionei se ela me reconheceria, ou ao contrário, se eu ainda era capaz de reconhecê-la. Enquanto estivemos juntos, ambas sorriram o riso da irrealidade e falaram palavras desencontradas. Aceitaram minha presença de bom grado. Na saída prometi retornar, mas elas não se importaram. Pensei que devia existir outra coisa, uma outra vida que até então se mostrara insondável. O guardador de carros viveu mais alguns anos até morrer de overdose, porém, antes, me enfiou a faca na barriga três vezes até ver meu corpo se debater no chão.
Desci para tomar um café e encontrei a mesa vazia. Farelos indicavam que eu havia chegado tarde. Sobrara um pouco de café preto. Os demais professores se acotovelavam na salinha contigua ao saguão, a única com ar condicionado. A reunião terminara, então fui pegar o carro na praça em frente à escola. O guardador de carro me chamou de irmão e pediu um trocado. Já o conhecia, talvez até soubesse seu nome, creio que se referia assim a todos: irmão. Não tinha importância. Disse de forma ríspida, porém, acredito que sem raiva, que não era seu irmão. O que teria mudado se eu simplesmente assentisse, ou, talvez, para reforçar aquilo que ofereciam a ele, tivesse apenas ignorado? Neguei também o dinheiro e bati a porta do carro. Em seguida ouvi um murmúrio, um ruminar de palavras: vou te enfiar a faca no bucho. Não sei ao certo. Deduzi que fosse algo como um dia te enfio a faca no bucho. Uma ameaça. Na hora tive mais raiva do que temor. Poderia ter saído do carro e lhe dado umas bofetadas. Era menor do que eu e magro do uso de drogas. Um alucinado. Mais tarde diria a mim mesmo que não havia lhe negado o direito de me chamar de irmão pelo simples fato de sermos negros. Será que ele havia me dito aquilo por isso? Por uma solidariedade de raça? Na hora nada me veio além de um desgosto misturado com impaciência, com um estar cheio disso, dos intrusos, dos que cobram e fingem estar pedindo. Entretanto, achava que comigo sua simpatia era mais forçada porque deveria parecer natural a existência de um laço entre nós. Bati a porta do carro. Quem ele pensava que era para me ameaçar?
Fui até o shopping almoçar ainda que não gostasse da impessoalidade luminosa do lugar. Todavia, por preguiça de estacionar, caminhar, procurar outro lugar para tomar café e ir ao banco, acabava indo lá. Essa era a armadilha idiota do shopping: oferecer comodidade aos acomodados da vida. Encontrei Camila. Não estava com rugas e papadas horrendas como se tivesse passado os anos bebendo e fumando por noites a fio. Naturalmente lhe faltava na tez o brilho característico da juventude, entretanto e, sobretudo, continuava linda. Fazia mais de quinze anos que não a via. Trazia na cabeça a lembrança do nosso último encontro: ela me abandonara. Fiquei sozinho no restaurante. Não voltou mais. Era ridículo pensar naquilo, contudo, de fato era a única coisa que restara dela. Cumprimentou-me com pouco entusiasmo, como se não estivesse conseguindo atribuir um significado a minha figura. Tenho certeza de que também pensou única e exclusivamente naquela noite. Dissemo-nos as coisas habituais: que quase não havíamos mudado, que fazia tempo, ah! a vida. Enfim, tudo bem. Ela tinha um filho. Não sou casado. Não tenho filhos. Vamos tomar um café? Tenho que pegar o Guilherme daqui a pouco. Vamos nos encontrar outra vez. Eu preciso te dizer um negócio: Vamos pra cama de novo. Eu não esqueci, só mais uma vez. Isso não tem importância. Vamos pra cama. Nós éramos jovens. Tchau. Me liga. Não. Um dia desses, quem sabe.
Camila partiu de olhos semicerrados após ter me negado pela segunda vez. Tudo foi tão rápido. Na cafeteria ela pediu um espresso enquanto tomei um pingado; de relevante dissemos pouco. Não havia uma pergunta formulada, concreta, que fosse traduzível em palavras. Ela não ia encontrar ninguém, continuava fútil como sempre fora. Comprar lhe emprestaria a falsa impressão de saciedade. É o que todos fazemos. Podia comprar qualquer coisa e aquilo lhe ocuparia um tempo de vida, meia hora, talvez duas ou mais se considerasse também o quanto gastaria até chegar em casa. Pegaria nas mãos o que havia comprado, fosse roupa, um livro ou bolsa, e o contemplaria com uma espécie de súplica desencantada e inútil. Depois o guardaria no território das coisas a espera da oportunidade de serem utilizadas.
Creio que devia ter feito mais alguma coisa antes de voltar para casa, talvez mais uma reunião em outra escola. Uma vez em casa, fechei todas as janelas e deitei no tapete da sala. Nunca fui nenhum fã de Belchior, porém a letra de uma música veio á cabeça. Tentei cantarolar: “se você me perguntar... de olhos abertos eu lhe direi”. Talvez o mendigo fosse me matar dali a dois. O mendigo irmão. “Amigo, eu me desesperava”.
Pela manhã, quando acordei, não pensei em que dia era e nem no que deveria fazer. Peguei o carro e rodei mais de uma hora, talvez muito mais, fazendo um esforço para recordar o lugar. Tinha certeza que podia encontrá-lo apenas com o que guardava na memória. Enfim estacionei o carro em frente a uma casa geriátrica. Ela era grande e antiga, repleta de árvores ao redor. Tinha um aspecto quase bondoso. Entrei na casa e na recepção perguntei por Elizabete. Chamaram uma mulher que me levou até a varanda onde duas senhoras conversavam. No breve caminho que conduzia até lá me questionei se ela me reconheceria, ou ao contrário, se eu ainda era capaz de reconhecê-la. Enquanto estivemos juntos, ambas sorriram o riso da irrealidade e falaram palavras desencontradas. Aceitaram minha presença de bom grado. Na saída prometi retornar, mas elas não se importaram. Pensei que devia existir outra coisa, uma outra vida que até então se mostrara insondável. O guardador de carros viveu mais alguns anos até morrer de overdose, porém, antes, me enfiou a faca na barriga três vezes até ver meu corpo se debater no chão.
domingo, 16 de março de 2014
Noturno
Porque existe outra coisa que somos nós – latido de cão, música no rádio, gelo na perna; sempre outra coisa que não essa. Um pouco de solidão, um poema em folha rasgada, escrito a lápis - letra tremida. Confessa-me um sentimento, uma ideia jocosa de amor ou uma palavra ordeira como que saída da tábua da lei. Busco-a sem apelo, sem a exigência irmã da dor, sem nenhuma dúvida ou desrazão. Pois que o faça. Retardo a noite aguardando o sono, aperto o lápis entre os dedos e declamo uma prece altissonante.
sexta-feira, 7 de março de 2014
Pierrot e Colombina
Chove desde muito cedo. Sinto uma espécie de preguiça, ou temor, de sair de casa. O mar é a maior parte do tempo da praia de modo que algumas centenas de gotas não deveriam me incomodar. A chuva conversa com o vento, que nada mais é do que uma melancolia tranquila que nos esforçamos para tirar do corpo. Em essência, a praia é de uma quietude que nenhum alarido pode sufocar, basta fechar os olhos e senti-lo. Entretanto, não dispenso o abrigo sincero do teu colo, menos ainda os olhares silenciosos que trocamos, pois o amor se desfaz e refaz constantemente. Debaixo do teto da casa de tijolos à vista, vislumbramos uma existência sem perdas nem ameaças, e rezamos para que o homem do mar proteja nossas esperanças. Nesse sonho, igualmente silencioso, dormimos. Ao despertar acaricio de leve tuas costas e tenho a certeza de que te amarei para sempre. Desperto novamente e fico deitado ouvindo a chuva e o rumor das ondas dizerem que ainda é tempo de sonhar.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Entre o mar e o amanhã
O primeiro escrito do ano só poderia ser sobre a praia e o mar, pois tudo na vida é necessariamente sobre o mar e a praia. Indissociáveis no idioma da minha memória afetiva. Não tenho nada para falar do ano que passou, nenhum balanço, e ao contrário do que isso possa dar a entender foi um bom ano. Todos os anos são agridoces, maravilhasos e diabólicos, por isso amo o isso que se apresenta. Já vivi anos ruins, uns péssimos, no entanto os últimos me parecem felizes na soma geral das partes: verão e inverno. Tudo se divide entre verão e inverno, em estar suado ou tremendo de frio. Escolho o calor eterno, ainda que o calor férreo da cidade nos castigue. Então deus e seus asseclas engenheiros inventaram a praia que é uma espécie de sonho. Um lugar mítico onde residem todos os nossos ancestrais nas vestes plácidas e turvas do mar. Não me digam que a praia é ruim ou suja, que junta gente demais, muito pobre, carros, esgoto a céu aberto, água marrom e gelada. Não. A praia é o único lugar não inventado, não construído pela mão canhestra do homem, que ainda guarda algo de genuíno e selvagem. Ali está o mar, deus netuno, las olas (rainhas) e o boto. No mar não há espaço para fingimentos; não estar com medo quando na verdade estamos. Em seus domínios só há aquela ligação inconsciente-espiritual, espécie de cordão umbilical que nos liga a fonte da vida. Tudo é força, imensidão. Nada do que somos tem significado - o falso que somos, os personagens que carregamos, as crenças a respeito de nós mesmos. O Mar é o ano novo ao mesmo tempo em que é repetição, ondas que executam sua tarefa eterna sem nem saber qual é. O Mar sabe, pois tudo necessariamente é ele.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
desvanecer-se
Não gosto de dormir. Reluto tanto quanto posso, porém o corpo cede. O problema em si não é o sono, nem o corpo. Não se trata de deitar e desligá-lo. Tampouco são as coisas que eu poderia estar fazer durante esse tempo morto. O drama está na velocidade com que o ato de dormir coloca-me novamente na roda perpétua do cotidiano, de frente à mecânica reprodução dos atos dos dias anteriores. Tira-me o aqui e agora, lança-me no futuro, nas garras de uma força inescrutável. Tento ficar acordado e permanecer o máximo que aguento dentro daquele mesmo dia. Sinto uma espécie de liberdade, armistício do mundo lá fora. Sentado no sofá, iluminado pelo abajur japonês da sala, leio página após página como se estivesse a competir. O corpo insiste em inquietar-se, torna as almofadas duras, deixa as costas arqueadas. Palavras transfiguram-se em imagens, páginas que se descolam do texto, algo que se intromete em meus pensamentos. A cabeça pende e aquele momento - que não pode definir-se em minutos, ou em metros, em números, que nem mesmo sei o que é - apaga-se aos poucos em movimentos intermitentes. Sou arrebatado para dentro de um tempo sem amarras, uma espécie de onda que varre a areia e depois reflui. Quase sempre acordo antes de o relógio despertar, o corpo parece sem vida, pesado. O cansaço é sentido como uma derrota. Talvez eu nem tenha despertado ainda e seja as palavras que o homem que luta contra o sono agora lê, ou apenas uma vaga ideia pensada por alguém.
sábado, 5 de outubro de 2013
O Adversário
Moisés desligou o telefone. O segurança tinha certeza, não estava enganado. Aquilo já durava um mês e na última semana havia sido diário. O desgraçado ficava lá parado em frente ao banco segurando a pasta de couro.
João Batista tinha quarenta e poucos anos, seis a mais do que Moisés. Desempregado, solteiro. Cabelos ralos anunciando a calvície. Morava com a mãe e passava os dias escrevendo. Aos quinze disse que seria escritor. Disse repetidas vezes e se pôs a escrever ano após ano. Enchia cadernos e folhas e mais folhas com seu rabisco nervoso. Os familiares fizeram tudo o que estivera ao alcance, inclusive acreditar que João publicaria um livro. Moisés dizia na escola que o irmão era escritor, entretanto, como o livro não saía nunca, parou de falar em João. Antes, porém, investiram nele dinheiro e fé. Pagaram cursos, oficinas literárias e até viagens. O livro não chegava ao fim, era o que ele afirmava. Depois, naturalmente, vieram as cobranças para que João mudasse os planos e investisse em outra carreira - que trabalhasse, fizesse algo que pelo menos lhe pagasse o cigarro. E, a partir disso, o que era problemático tornou-se como ferrugem encruada. João tornou-se personagem de si mesmo, a própria história que escrevia, a qual ninguém conseguira sequer ler.
Naquele dia Moisés não saiu do banco nem para almoçar e ficou quieto em sua mesa. No entanto, após receber o telefonema do segurança, sentiu-se como se agredido por força irracional: seu irmão estava lá e chamariam a policia caso não saísse. A coisa era séria agora, o gerente avisava. De início João Batista ficava em frente ao banco apenas alguns dias da semana e durante pouco mais de uma hora. Então aumentou a frequência e a duração do tempo em que lá permanecia. Moisés ao ver o irmão teve mau augúrio, boa coisa não saía dali. João nada disse em nenhuma das vezes. Nada, tampouco o cumprimentou. Olhavam-se apenas. Ingenuamente, pois consternado, Moisés confessou aos colegas que aquele homem era seu irmão mais velho. Por fim, depois de muitas reclamações e desconfiança dos funcionários, a polícia seria acionada, caso Moisés não solucionasse o problema. Desceu os degraus do segundo andar e ao chegar ao térreo olhou para o saguão como se quisesse ter certeza de que todos vissem o que estava prestes a fazer, para que sentissem um pouco da sua própria humilhação. Passou pela porta giratória - percebeu o quanto estava quente na rua. A claridade intensa da tarde era como uma espécie de ajuste de nitidez aos olhos. No contraluz viu João Batista, a indelével pasta de couro, porém a barba feita e os cabelos cortados. As roupas pareciam novas. Estou pronto, disse. Pronto pra quê? retrucou o irmão. João Batista tirou da pasta um maço de folhas, centenas, todas rabiscadas e as jogou para o alto. As folhas se espalharam multiplicadas pelo vento. Moisés correu pela rua atrás delas, tomado por impulso, não de salvá-las, mas talvez de voar. Correu, deu saltos no ar, ajoelhou-se no asfalto. João Batista caminhou por entre os carros parados e se desfez também da pasta de couro. Moisés passou o resto da tarde juntando as folhas que conseguiu recuperar. A noite leu as páginas que o irmão escrevera. No dia seguinte, às sete da manhã, João Batista acordou. Banhou-se e tomou café em companhia da mãe. Antes das dez horas já estava no banco, sentado no guichê ajeitando o dinheiro do caixa. Moisés acordou no mesmo horário que o irmão, beijou a mulher e saiu de casa com a pasta de couro e as folhas do romance debaixo do braço.
João Batista tinha quarenta e poucos anos, seis a mais do que Moisés. Desempregado, solteiro. Cabelos ralos anunciando a calvície. Morava com a mãe e passava os dias escrevendo. Aos quinze disse que seria escritor. Disse repetidas vezes e se pôs a escrever ano após ano. Enchia cadernos e folhas e mais folhas com seu rabisco nervoso. Os familiares fizeram tudo o que estivera ao alcance, inclusive acreditar que João publicaria um livro. Moisés dizia na escola que o irmão era escritor, entretanto, como o livro não saía nunca, parou de falar em João. Antes, porém, investiram nele dinheiro e fé. Pagaram cursos, oficinas literárias e até viagens. O livro não chegava ao fim, era o que ele afirmava. Depois, naturalmente, vieram as cobranças para que João mudasse os planos e investisse em outra carreira - que trabalhasse, fizesse algo que pelo menos lhe pagasse o cigarro. E, a partir disso, o que era problemático tornou-se como ferrugem encruada. João tornou-se personagem de si mesmo, a própria história que escrevia, a qual ninguém conseguira sequer ler.
Naquele dia Moisés não saiu do banco nem para almoçar e ficou quieto em sua mesa. No entanto, após receber o telefonema do segurança, sentiu-se como se agredido por força irracional: seu irmão estava lá e chamariam a policia caso não saísse. A coisa era séria agora, o gerente avisava. De início João Batista ficava em frente ao banco apenas alguns dias da semana e durante pouco mais de uma hora. Então aumentou a frequência e a duração do tempo em que lá permanecia. Moisés ao ver o irmão teve mau augúrio, boa coisa não saía dali. João nada disse em nenhuma das vezes. Nada, tampouco o cumprimentou. Olhavam-se apenas. Ingenuamente, pois consternado, Moisés confessou aos colegas que aquele homem era seu irmão mais velho. Por fim, depois de muitas reclamações e desconfiança dos funcionários, a polícia seria acionada, caso Moisés não solucionasse o problema. Desceu os degraus do segundo andar e ao chegar ao térreo olhou para o saguão como se quisesse ter certeza de que todos vissem o que estava prestes a fazer, para que sentissem um pouco da sua própria humilhação. Passou pela porta giratória - percebeu o quanto estava quente na rua. A claridade intensa da tarde era como uma espécie de ajuste de nitidez aos olhos. No contraluz viu João Batista, a indelével pasta de couro, porém a barba feita e os cabelos cortados. As roupas pareciam novas. Estou pronto, disse. Pronto pra quê? retrucou o irmão. João Batista tirou da pasta um maço de folhas, centenas, todas rabiscadas e as jogou para o alto. As folhas se espalharam multiplicadas pelo vento. Moisés correu pela rua atrás delas, tomado por impulso, não de salvá-las, mas talvez de voar. Correu, deu saltos no ar, ajoelhou-se no asfalto. João Batista caminhou por entre os carros parados e se desfez também da pasta de couro. Moisés passou o resto da tarde juntando as folhas que conseguiu recuperar. A noite leu as páginas que o irmão escrevera. No dia seguinte, às sete da manhã, João Batista acordou. Banhou-se e tomou café em companhia da mãe. Antes das dez horas já estava no banco, sentado no guichê ajeitando o dinheiro do caixa. Moisés acordou no mesmo horário que o irmão, beijou a mulher e saiu de casa com a pasta de couro e as folhas do romance debaixo do braço.
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