quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Entre o mar e o amanhã
O primeiro escrito do ano só poderia ser sobre a praia e o mar, pois tudo na vida é necessariamente sobre o mar e a praia. Indissociáveis no idioma da minha memória afetiva. Não tenho nada para falar do ano que passou, nenhum balanço, e ao contrário do que isso possa dar a entender foi um bom ano. Todos os anos são agridoces, maravilhasos e diabólicos, por isso amo o isso que se apresenta. Já vivi anos ruins, uns péssimos, no entanto os últimos me parecem felizes na soma geral das partes: verão e inverno. Tudo se divide entre verão e inverno, em estar suado ou tremendo de frio. Escolho o calor eterno, ainda que o calor férreo da cidade nos castigue. Então deus e seus asseclas engenheiros inventaram a praia que é uma espécie de sonho. Um lugar mítico onde residem todos os nossos ancestrais nas vestes plácidas e turvas do mar. Não me digam que a praia é ruim ou suja, que junta gente demais, muito pobre, carros, esgoto a céu aberto, água marrom e gelada. Não. A praia é o único lugar não inventado, não construído pela mão canhestra do homem, que ainda guarda algo de genuíno e selvagem. Ali está o mar, deus netuno, las olas (rainhas) e o boto. No mar não há espaço para fingimentos; não estar com medo quando na verdade estamos. Em seus domínios só há aquela ligação inconsciente-espiritual, espécie de cordão umbilical que nos liga a fonte da vida. Tudo é força, imensidão. Nada do que somos tem significado - o falso que somos, os personagens que carregamos, as crenças a respeito de nós mesmos. O Mar é o ano novo ao mesmo tempo em que é repetição, ondas que executam sua tarefa eterna sem nem saber qual é. O Mar sabe, pois tudo necessariamente é ele.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
desvanecer-se
Não gosto de dormir. Reluto tanto quanto posso, porém o corpo cede. O problema em si não é o sono, nem o corpo. Não se trata de deitar e desligá-lo. Tampouco são as coisas que eu poderia estar fazer durante esse tempo morto. O drama está na velocidade com que o ato de dormir coloca-me novamente na roda perpétua do cotidiano, de frente à mecânica reprodução dos atos dos dias anteriores. Tira-me o aqui e agora, lança-me no futuro, nas garras de uma força inescrutável. Tento ficar acordado e permanecer o máximo que aguento dentro daquele mesmo dia. Sinto uma espécie de liberdade, armistício do mundo lá fora. Sentado no sofá, iluminado pelo abajur japonês da sala, leio página após página como se estivesse a competir. O corpo insiste em inquietar-se, torna as almofadas duras, deixa as costas arqueadas. Palavras transfiguram-se em imagens, páginas que se descolam do texto, algo que se intromete em meus pensamentos. A cabeça pende e aquele momento - que não pode definir-se em minutos, ou em metros, em números, que nem mesmo sei o que é - apaga-se aos poucos em movimentos intermitentes. Sou arrebatado para dentro de um tempo sem amarras, uma espécie de onda que varre a areia e depois reflui. Quase sempre acordo antes de o relógio despertar, o corpo parece sem vida, pesado. O cansaço é sentido como uma derrota. Talvez eu nem tenha despertado ainda e seja as palavras que o homem que luta contra o sono agora lê, ou apenas uma vaga ideia pensada por alguém.
sábado, 5 de outubro de 2013
O Adversário
Moisés desligou o telefone. O segurança tinha certeza, não estava enganado. Aquilo já durava um mês e na última semana havia sido diário. O desgraçado ficava lá parado em frente ao banco segurando a pasta de couro.
João Batista tinha quarenta e poucos anos, seis a mais do que Moisés. Desempregado, solteiro. Cabelos ralos anunciando a calvície. Morava com a mãe e passava os dias escrevendo. Aos quinze disse que seria escritor. Disse repetidas vezes e se pôs a escrever ano após ano. Enchia cadernos e folhas e mais folhas com seu rabisco nervoso. Os familiares fizeram tudo o que estivera ao alcance, inclusive acreditar que João publicaria um livro. Moisés dizia na escola que o irmão era escritor, entretanto, como o livro não saía nunca, parou de falar em João. Antes, porém, investiram nele dinheiro e fé. Pagaram cursos, oficinas literárias e até viagens. O livro não chegava ao fim, era o que ele afirmava. Depois, naturalmente, vieram as cobranças para que João mudasse os planos e investisse em outra carreira - que trabalhasse, fizesse algo que pelo menos lhe pagasse o cigarro. E, a partir disso, o que era problemático tornou-se como ferrugem encruada. João tornou-se personagem de si mesmo, a própria história que escrevia, a qual ninguém conseguira sequer ler.
Naquele dia Moisés não saiu do banco nem para almoçar e ficou quieto em sua mesa. No entanto, após receber o telefonema do segurança, sentiu-se como se agredido por força irracional: seu irmão estava lá e chamariam a policia caso não saísse. A coisa era séria agora, o gerente avisava. De início João Batista ficava em frente ao banco apenas alguns dias da semana e durante pouco mais de uma hora. Então aumentou a frequência e a duração do tempo em que lá permanecia. Moisés ao ver o irmão teve mau augúrio, boa coisa não saía dali. João nada disse em nenhuma das vezes. Nada, tampouco o cumprimentou. Olhavam-se apenas. Ingenuamente, pois consternado, Moisés confessou aos colegas que aquele homem era seu irmão mais velho. Por fim, depois de muitas reclamações e desconfiança dos funcionários, a polícia seria acionada, caso Moisés não solucionasse o problema. Desceu os degraus do segundo andar e ao chegar ao térreo olhou para o saguão como se quisesse ter certeza de que todos vissem o que estava prestes a fazer, para que sentissem um pouco da sua própria humilhação. Passou pela porta giratória - percebeu o quanto estava quente na rua. A claridade intensa da tarde era como uma espécie de ajuste de nitidez aos olhos. No contraluz viu João Batista, a indelével pasta de couro, porém a barba feita e os cabelos cortados. As roupas pareciam novas. Estou pronto, disse. Pronto pra quê? retrucou o irmão. João Batista tirou da pasta um maço de folhas, centenas, todas rabiscadas e as jogou para o alto. As folhas se espalharam multiplicadas pelo vento. Moisés correu pela rua atrás delas, tomado por impulso, não de salvá-las, mas talvez de voar. Correu, deu saltos no ar, ajoelhou-se no asfalto. João Batista caminhou por entre os carros parados e se desfez também da pasta de couro. Moisés passou o resto da tarde juntando as folhas que conseguiu recuperar. A noite leu as páginas que o irmão escrevera. No dia seguinte, às sete da manhã, João Batista acordou. Banhou-se e tomou café em companhia da mãe. Antes das dez horas já estava no banco, sentado no guichê ajeitando o dinheiro do caixa. Moisés acordou no mesmo horário que o irmão, beijou a mulher e saiu de casa com a pasta de couro e as folhas do romance debaixo do braço.
João Batista tinha quarenta e poucos anos, seis a mais do que Moisés. Desempregado, solteiro. Cabelos ralos anunciando a calvície. Morava com a mãe e passava os dias escrevendo. Aos quinze disse que seria escritor. Disse repetidas vezes e se pôs a escrever ano após ano. Enchia cadernos e folhas e mais folhas com seu rabisco nervoso. Os familiares fizeram tudo o que estivera ao alcance, inclusive acreditar que João publicaria um livro. Moisés dizia na escola que o irmão era escritor, entretanto, como o livro não saía nunca, parou de falar em João. Antes, porém, investiram nele dinheiro e fé. Pagaram cursos, oficinas literárias e até viagens. O livro não chegava ao fim, era o que ele afirmava. Depois, naturalmente, vieram as cobranças para que João mudasse os planos e investisse em outra carreira - que trabalhasse, fizesse algo que pelo menos lhe pagasse o cigarro. E, a partir disso, o que era problemático tornou-se como ferrugem encruada. João tornou-se personagem de si mesmo, a própria história que escrevia, a qual ninguém conseguira sequer ler.
Naquele dia Moisés não saiu do banco nem para almoçar e ficou quieto em sua mesa. No entanto, após receber o telefonema do segurança, sentiu-se como se agredido por força irracional: seu irmão estava lá e chamariam a policia caso não saísse. A coisa era séria agora, o gerente avisava. De início João Batista ficava em frente ao banco apenas alguns dias da semana e durante pouco mais de uma hora. Então aumentou a frequência e a duração do tempo em que lá permanecia. Moisés ao ver o irmão teve mau augúrio, boa coisa não saía dali. João nada disse em nenhuma das vezes. Nada, tampouco o cumprimentou. Olhavam-se apenas. Ingenuamente, pois consternado, Moisés confessou aos colegas que aquele homem era seu irmão mais velho. Por fim, depois de muitas reclamações e desconfiança dos funcionários, a polícia seria acionada, caso Moisés não solucionasse o problema. Desceu os degraus do segundo andar e ao chegar ao térreo olhou para o saguão como se quisesse ter certeza de que todos vissem o que estava prestes a fazer, para que sentissem um pouco da sua própria humilhação. Passou pela porta giratória - percebeu o quanto estava quente na rua. A claridade intensa da tarde era como uma espécie de ajuste de nitidez aos olhos. No contraluz viu João Batista, a indelével pasta de couro, porém a barba feita e os cabelos cortados. As roupas pareciam novas. Estou pronto, disse. Pronto pra quê? retrucou o irmão. João Batista tirou da pasta um maço de folhas, centenas, todas rabiscadas e as jogou para o alto. As folhas se espalharam multiplicadas pelo vento. Moisés correu pela rua atrás delas, tomado por impulso, não de salvá-las, mas talvez de voar. Correu, deu saltos no ar, ajoelhou-se no asfalto. João Batista caminhou por entre os carros parados e se desfez também da pasta de couro. Moisés passou o resto da tarde juntando as folhas que conseguiu recuperar. A noite leu as páginas que o irmão escrevera. No dia seguinte, às sete da manhã, João Batista acordou. Banhou-se e tomou café em companhia da mãe. Antes das dez horas já estava no banco, sentado no guichê ajeitando o dinheiro do caixa. Moisés acordou no mesmo horário que o irmão, beijou a mulher e saiu de casa com a pasta de couro e as folhas do romance debaixo do braço.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Da calçada
Andando pela calçada estreita de uma rua do baixo centro, avistei um preservativo masculino usado – existe um nome muito mais econômico para isso. Enrolado em si mesmo, abandonado na entrada da garagem. Será que alguém trepou ali na noite anterior? Ali? Vulnerável, ereto, sem nem ao menos se recostar em alguma coisa? Segui caminho e a uns 20 metros à frente estavam dois guarda-chuvas jogados ao chão perto de um poste. Guarda-chuvas idênticos, siameses, talvez deixados na calçada ao mesmo tempo. Os dois estourados com as hastes retorcidas. Imaginei que deviam pertencer a um casal de gêmeos. Mais uma calçada transposta e vejo um poste tomado de sacolas plásticas de lixo, e, ao lado, uma camiseta amarela de criança em bom estado. Estava em uma das sacolas e deve ter escapado. Duvido que a criança tenha a colocado ali. Em bom estado. Chamou-me à atenção.
No cruzamento da rua com a avenida, nos fios que também se entrecruzam, um par de tênis sobraçava dependurado pelos cadarços. Um all star preto. Atravessei apressado e pelo resto daquela rua nem tão longa que desemboca em outra avenida transtornada de carros, um rastro de lixo se acumulava pelas calçadas e postes como se tivessem brotado da terra. Marcas indeléveis da nossa presença, do que fazemos e somos. Um tanto de vida esquecida ou tão somente trocada. Uma coisa a substituir outra: lembranças, pessoas, palavras. A cobra que engole o próprio rabo. Acúmulo e desperdício. Uma sociedade inteira orientada pelo principio do consumo e do descarte. E devemos fazê-lo em ritmos industriais. Talvez um dia a Terra venha a nos devolver isso que estamos lhe obrigando a engolir. O lixo será nossa herança, um legado puro e autêntico da nossa identidade e tempo. Enquanto isso, caminhamos. A rua é o palco da cidade onde os encontros se tornam possíveis, em que afluem caminhos e os estranhos se reconhecem. Os objetos e restos jogados nas calçadas ainda nos pertencem, carregam a presença de quem por ali passou. Talvez a nossa história de homens modernos seja recontada pelas gerações futuras através do lixo. Quem sabe até um museu dos homens catadores. De forma assustadora o número de moradores de rua aumenta e um estranho paralelo se estabelece entre eles e a calçada: descartamos tudo que é indesejado, até pessoas.
No cruzamento da rua com a avenida, nos fios que também se entrecruzam, um par de tênis sobraçava dependurado pelos cadarços. Um all star preto. Atravessei apressado e pelo resto daquela rua nem tão longa que desemboca em outra avenida transtornada de carros, um rastro de lixo se acumulava pelas calçadas e postes como se tivessem brotado da terra. Marcas indeléveis da nossa presença, do que fazemos e somos. Um tanto de vida esquecida ou tão somente trocada. Uma coisa a substituir outra: lembranças, pessoas, palavras. A cobra que engole o próprio rabo. Acúmulo e desperdício. Uma sociedade inteira orientada pelo principio do consumo e do descarte. E devemos fazê-lo em ritmos industriais. Talvez um dia a Terra venha a nos devolver isso que estamos lhe obrigando a engolir. O lixo será nossa herança, um legado puro e autêntico da nossa identidade e tempo. Enquanto isso, caminhamos. A rua é o palco da cidade onde os encontros se tornam possíveis, em que afluem caminhos e os estranhos se reconhecem. Os objetos e restos jogados nas calçadas ainda nos pertencem, carregam a presença de quem por ali passou. Talvez a nossa história de homens modernos seja recontada pelas gerações futuras através do lixo. Quem sabe até um museu dos homens catadores. De forma assustadora o número de moradores de rua aumenta e um estranho paralelo se estabelece entre eles e a calçada: descartamos tudo que é indesejado, até pessoas.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
A Metafísica do Tênis
Terminei a leitura do artigo sobre a final do torneio de Wimbledon entre Federer e Nadal. Antes de prosseguir com o texto preciso fazer uma correção: o artigo se refere a final de Wimbledon de 2006 e não de 2005 como, de forma displicente, eu havia afirmado anteriormente. Em princípio apenas desatenção.
Contrariando a expectativa gerada, o autor não revela quem ganhou o torneio, aliás, o abandona solenemente para discorrer sobre o âmago do tênis moderno. E faz jus a proposta do texto, pois se fosse apenas sobre a partida e o resultado, bastava procurar no Google. Não é à toa que o artigo chama-se “Federer como experiência religiosa”. Manobra astuta de DFW – David Foster Wallace, o autor – fisgar o leitor nas páginas iniciais com a promessa de uma crônica vibrante e fiel do jogo. O escritor é bastante didático quanto à explicação da mecânica do esporte, fruto de sua experiência como tenista amador na juventude. Pude compreender o que é uma bola cheia de “topspin” e a definição do estilo “power-baseline”. Entendi um pouco melhor o que faz Federer ser considerado uma lenda, para muitos o melhor jogador da história do tênis. Ao vê-lo em quadra tinha um pouco essa intuição; a beleza inexplicável de alguns golpes e a aparente facilidade e despretensão com que faz aquilo. Mas o que interessa a DFW está além, na experiência metafísica ao assistir o suíço jogando. O que faz Federer ser Federer é tudo aquilo que não cabe nas possibilidades concretas de explicação, ou seja, o treinamento, o senso cinestésico, condicionamento, estratégia, agilidade, entre outros. Está no modo como ele congrega todos esses aspectos e coloca-os em funcionamento, no ato singular de reconciliar a força e a graça, o humano e aquilo que o excede. Talvez a intenção do artigo fosse justamente essa: transcender a mera experiência física do ato da leitura. Assim como minha crença na literatura, não sua função, da possibilidade de reconciliação entre o humano e o sagrado. Nada de deuses ou religiões, cultos e santos, apenas o mistério da própria vida. Este algo pleno e etéreo que sempre nos falta ou escapa, engolido pela força bruta da matéria. Saber o resultado do torneio de Wimbledon de 2006, ou 2005, definitivamente não fará a menor diferença, mas ter lido o artigo sim. De agora em diante assistirei aos jogos à espera de um “Momento Federer” de revelação.
Contrariando a expectativa gerada, o autor não revela quem ganhou o torneio, aliás, o abandona solenemente para discorrer sobre o âmago do tênis moderno. E faz jus a proposta do texto, pois se fosse apenas sobre a partida e o resultado, bastava procurar no Google. Não é à toa que o artigo chama-se “Federer como experiência religiosa”. Manobra astuta de DFW – David Foster Wallace, o autor – fisgar o leitor nas páginas iniciais com a promessa de uma crônica vibrante e fiel do jogo. O escritor é bastante didático quanto à explicação da mecânica do esporte, fruto de sua experiência como tenista amador na juventude. Pude compreender o que é uma bola cheia de “topspin” e a definição do estilo “power-baseline”. Entendi um pouco melhor o que faz Federer ser considerado uma lenda, para muitos o melhor jogador da história do tênis. Ao vê-lo em quadra tinha um pouco essa intuição; a beleza inexplicável de alguns golpes e a aparente facilidade e despretensão com que faz aquilo. Mas o que interessa a DFW está além, na experiência metafísica ao assistir o suíço jogando. O que faz Federer ser Federer é tudo aquilo que não cabe nas possibilidades concretas de explicação, ou seja, o treinamento, o senso cinestésico, condicionamento, estratégia, agilidade, entre outros. Está no modo como ele congrega todos esses aspectos e coloca-os em funcionamento, no ato singular de reconciliar a força e a graça, o humano e aquilo que o excede. Talvez a intenção do artigo fosse justamente essa: transcender a mera experiência física do ato da leitura. Assim como minha crença na literatura, não sua função, da possibilidade de reconciliação entre o humano e o sagrado. Nada de deuses ou religiões, cultos e santos, apenas o mistério da própria vida. Este algo pleno e etéreo que sempre nos falta ou escapa, engolido pela força bruta da matéria. Saber o resultado do torneio de Wimbledon de 2006, ou 2005, definitivamente não fará a menor diferença, mas ter lido o artigo sim. De agora em diante assistirei aos jogos à espera de um “Momento Federer” de revelação.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
A Medida do Mundo
“Rigorismo” - esbravejou o pai. Ainda que não fosse um brado de guerra era pleno de revolta, porém sem muito alarde para não constranger as filhas. Estavam apenas dois minutos atrasados pelas contas do pai, ou seja, tecnicamente é um atraso, mas, convenhamos. Proibiram a entrada das meninas, dessa forma perderiam os dois primeiros períodos e a prova. Isso mesmo; perderiam a prova por dois minutos de atraso. Culpa do trânsito, disse o pai. “Hoje em dia, com esse trânsito, ás vezes se chega dez minutos antes, ás vezes dez minutos depois”. Confessava a impotência diante dos fatos. Inflexível, a secretária afirmou que as supervisoras não permitiram a entrada das meninas. Teriam de esperar. “Rigorismo.” Dessa vez a voz saiu vacilante como se na verdade anunciasse que ele iria se retirar logo em seguida, o que acabou fazendo depois de um sapatear um pouco em frente à porta. As garotas sentaram-se num banco próximo a entrada, disposto estrategicamente para visitantes e retardatários.
As regras são aplicáveis aos outros, mas não a nós e aos nossos. Diz o provérbio: “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Nada além do óbvio, ainda que ele seja ardiloso.
Talvez o homem tenha voltado para casa remoendo a ideia de que se tivesse imposto sua prerrogativa de cliente, seria atendido, de mais a mais o caso nem poderia ser considerado uma exceção à regra; antes uma questão de bom senso. Duas filhas - não pagava pouco à escola, deveriam levar isso em conta. Isso era o que estava implícito nos seus passos inquietos, no rosto crispado. Achei que a qualquer momento o discurso fosse lhe fugir da boca. Foi uma espécie de pensamento condicionado, fiquei esperando a frase. Aquela frase. Não disse. Parece-me que entre nós instalou-se certa ideia subterrânea de que tudo está permeado pelas relações cliente/empresa, custo x benefício, lucro e prejuízo. A medida do mundo.
É provável - mais do que provável, quiçá indiscutível - que a escola esteja com a razão e não o pai. Regras são regras, servem para coibir o caos (sic). Pedir bom senso do mundo é exigir mais do que as pessoas podem dar. Eu, que cheguei com trinta minutos de antecedência, fiquei pensando se não carecia também de um tanto mais de “rigorismo”.
As regras são aplicáveis aos outros, mas não a nós e aos nossos. Diz o provérbio: “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Nada além do óbvio, ainda que ele seja ardiloso.
Talvez o homem tenha voltado para casa remoendo a ideia de que se tivesse imposto sua prerrogativa de cliente, seria atendido, de mais a mais o caso nem poderia ser considerado uma exceção à regra; antes uma questão de bom senso. Duas filhas - não pagava pouco à escola, deveriam levar isso em conta. Isso era o que estava implícito nos seus passos inquietos, no rosto crispado. Achei que a qualquer momento o discurso fosse lhe fugir da boca. Foi uma espécie de pensamento condicionado, fiquei esperando a frase. Aquela frase. Não disse. Parece-me que entre nós instalou-se certa ideia subterrânea de que tudo está permeado pelas relações cliente/empresa, custo x benefício, lucro e prejuízo. A medida do mundo.
É provável - mais do que provável, quiçá indiscutível - que a escola esteja com a razão e não o pai. Regras são regras, servem para coibir o caos (sic). Pedir bom senso do mundo é exigir mais do que as pessoas podem dar. Eu, que cheguei com trinta minutos de antecedência, fiquei pensando se não carecia também de um tanto mais de “rigorismo”.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Wimbledon
Dia chuvoso de primavera. Faz frio também, portanto ainda a esperamos. O almoço foi leve: salada, peito de frango grelhado e arroz. As pessoas nas mesas ao redor mexiam em seus smartphones conferindo o facebook a cada 30 segundos. Curtir, postar fotos de comida, comentar. O facebook é uma espécie de consciência onipresente ou um chefe a quem devemos nos reportar Como tenho me policiado quanto ao uso dessa ferramenta orwelliana, iniciei a leitura de um artigo sobre a final do torneio de tênis de Wimbledon, disputado por Federer e Nadal em 2005 e escrita por um cara que já se matou. Não que o suicídio seja o que esperamos das pessoas. Aquele já é só para enfatizar a ideia de coisa remota como, por exemplo, uma final de tênis ocorrida há oito anos e comentada de modo religioso por alguém que morreu jovem e de forma trágica.
O mais estranho é que não sei o resultado da partida, quem ganhou o torneio. O autor ainda não chegou lá. Poderia, é claro, facilmente obter a informação no Google, entretanto desejo manter a expectativa como se estivesse acompanhando o jogo. Por outro lado, não faz a menor diferença na minha vida sabê-lo ou não. A vida também é feita de um monte de informações desimportantes e futilidades, igual ao facebook. Medir a relevância dos fatos parece tarefa bastante óbvia. Como confundir a essência com o superficial? Porém não é. Reduzida ao essencial à vida é uma jornada de sobrevivência. Ir além é o trabalho árduo. A visão reina sobre os demais sentidos e é dada a quimeras. O que me parece tão importante hoje, não o será amanhã, ou talvez o contrário, mostre-me seu valor, revele-se de uma forma distinta. De que maneira o resultado da final de Wimbledon de 2005 pode alterar minha vida ou acrescentar algo de relevante? O fato é que todas as futilidades me soam atraentes. Não jogo tênis - nunca joguei, sequer segurei uma raquete na mão. Entretanto, por alguns segundos, tento vislumbrar uma vida feita apenas de informações úteis, instruções e comandos técnicos de funcionamento. Ao invés disso penso em alguém que nesse momento toma café enquanto espera a chuva passar, apenas por esperar. Nada o aguarda ali adiante. Ele é isso; a espera, os carros desacelerando, o sinal vermelho. Eu também não sei exercitar o nada, não consigo almoçar sem ler ou escutar música, ao mesmo tempo em que não gosto de conversar com estranhos nessas estranhas praças de alimentação de shoppings. Talvez ler seja um modo de absorver o tempo. Procuro um lugar mais tranquilo para dar continuidade à partida. Espero que o Federer vença.
O mais estranho é que não sei o resultado da partida, quem ganhou o torneio. O autor ainda não chegou lá. Poderia, é claro, facilmente obter a informação no Google, entretanto desejo manter a expectativa como se estivesse acompanhando o jogo. Por outro lado, não faz a menor diferença na minha vida sabê-lo ou não. A vida também é feita de um monte de informações desimportantes e futilidades, igual ao facebook. Medir a relevância dos fatos parece tarefa bastante óbvia. Como confundir a essência com o superficial? Porém não é. Reduzida ao essencial à vida é uma jornada de sobrevivência. Ir além é o trabalho árduo. A visão reina sobre os demais sentidos e é dada a quimeras. O que me parece tão importante hoje, não o será amanhã, ou talvez o contrário, mostre-me seu valor, revele-se de uma forma distinta. De que maneira o resultado da final de Wimbledon de 2005 pode alterar minha vida ou acrescentar algo de relevante? O fato é que todas as futilidades me soam atraentes. Não jogo tênis - nunca joguei, sequer segurei uma raquete na mão. Entretanto, por alguns segundos, tento vislumbrar uma vida feita apenas de informações úteis, instruções e comandos técnicos de funcionamento. Ao invés disso penso em alguém que nesse momento toma café enquanto espera a chuva passar, apenas por esperar. Nada o aguarda ali adiante. Ele é isso; a espera, os carros desacelerando, o sinal vermelho. Eu também não sei exercitar o nada, não consigo almoçar sem ler ou escutar música, ao mesmo tempo em que não gosto de conversar com estranhos nessas estranhas praças de alimentação de shoppings. Talvez ler seja um modo de absorver o tempo. Procuro um lugar mais tranquilo para dar continuidade à partida. Espero que o Federer vença.
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