sábado, 16 de abril de 2011

Coletivo



Andar de ônibus não está entre em minhas atividades favoritas. Nunca esteve. Aliás, duvido dessa hipótese: alguém que ande de ônibus motivado por uma espécie de prazer, que escolha deliberadamente fazê-lo porque acordou com desejo. É uma necessidade. Indispensável para aqueles que não possuem carro, ou possuem, mas que por algum motivo, talvez preguiça ou economia, resolveram não usá-lo no dia. E para todos nós, e todos os outros, para qualquer um, existe o ônibus.
O ultimo livro do escritor e tradutor carioca, Rubens Figueiredo, tem como pano de fundo, e componente essencial da trama, o coletivo urbano. Confesso que ainda não li, está na minha lista gigantesca de leitura, porém a sinopse me pareceu muito interessante. Retirei do site da Companhia das Letras, segue:

PASSAGEIRO DO FIM DO DIA
Rubens Figueiredo
Companhia das Letras

De radinho no ouvido, lendo a intervalos, observando o que se passa dentro do ônibus e fora nas ruas, Pedro, sem se dar conta, costura as ideias. Ao fim da viagem ele não será mais o mesmo: o que vê e pensa durante o trajeto, os fatos de sua vida, seus afetos, o mundo em que está imerso, tudo reunido terá formado um novo conhecimento, mais profundo e mais crítico, mas que nem por isso o deixará desprotegido numa sociedade em que parece não haver como fugir de um destino opressivo.

O ônibus como símbolo da opressão, ou simplesmente como imagem opressiva, mesmo que óbvia, é muito forte e pertinente porque expressa exatamente aquilo que imaginamos quando a vemos: um inferno caótico e sufocante. Sustento tal afirmação ancorado pela minha farta experiência em viagens desconfortáveis, superlotadas e depressivas. A mais pura raiva que nos assalta logo nos minutos iniciais de viagem não resiste ao lento, porém progressivo, sentimento de alheamento que o corpo, tomado de cansaço e submetido ao desconforto, oferece à mente. O desânimo escala as pernas até alcançar as entranhas do estômago e se instala no peito como musgo em pedra, e de lá adormece nossos olhos; anula os pensamentos. O que mais me impressiona é que antes disso, antes de nos entregarmos ao torpor, há uma espécie de batalha, um confronto entre os ocupantes que já estão no coletivo e os novos que vão sendo tragados para dentro da embarcação. Arma-se no céu uma luta por espaço, uma revolta nem sempre tão silenciosa entre os do fundo contra os da frente, entre os que empurram e os que são empurrados, os que restaram de pé contra os sentados. Como uma descarga elétrica a sensação de que estamos uns contra os outros se espalha rapidamente. Porém, se é mesmo verdade, então quem estará a nosso favor, quem nos protegerá de nós mesmos? Talvez nossa redenção esteja nos pequenos atos: o vento que entra por uma fresta da janela, uma gentileza ao estranho a nossa esquerda, podemos até lhe oferecer o assento, ou quem sabe uma troca furtiva de olhares, plena de desejo. O que nos resta é uma promessa; algo de bom escondido nas vestes esfarrapadas do cotidiano.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Esse negócio de micronarrativa é uma farsa

Pedro e Judith
Pedro voltou à leitura. Judith apagou o cigarro no chão da cozinha, foi até a sala, pôs um cd no Semp Toshiba PC-5639 e aumentou o volume até o talo. Pedro foi para o banheiro com o livro debaixo do braço. Lá sentou-se no vaso e deu prosseguimento a leitura. Judith teve vontade de se jogar pela janela, mesmo assim continuou com a dança.

Bom dia
Sheila recebeu uma ligação e a saldou com um efusivo “boa tarde”, ainda que fosse manhã, e nem reparou na ligeira confusão que fizera. A pessoa do outro lado da linha, apesar da decepção, preferiu não alertá-la.

Xenofobia
Ludimila chegou apressada na empresa e deixou a bolsa na primeira mesa que viu pela frente. Não esperava encontrar a chefa nordestina atirada no chão ao lado da mesinha do café. Temeu represálias.

Hotel das Estrelas
Irani partiu com a alça da bolsa meio rasgada, os cabelos desgrenhados e um embolo no peito, misto de medo e decepção, de raiva também. Teve o resto das coisas jogadas na calçada. Sentiu vergonha do chinelinho de dedo que calçava.

O amor
Meu amor, disse Marilene, porém, logo depois, sacudiu a cabeça e abriu um sorriso desinteressado e acolhedor. Ultimamente dera para confundir o nome do marido com o do colega, ás vezes o chamava de Gustavo com tanta insistência que Marcos atendia. No entanto, ao ouvi-la chamando meu amor um calafrio lhe percorreu a alma, os olhos se perderam em algum ponto entre a tela do computador e o calendário de parede, e o pescoço enrijeceu. Engasgou. Calma, Gustavo, arrematou Marilene.

domingo, 13 de março de 2011

Os desaparecidos

Atento ao barulho que vinha do corredor, denunciando um sobe e desce intenso nas escadarias do prédio, o homem, o vizinho do 302, conhecido pelo outros moradores como o esquisito, ou aquele que não cumprimenta ninguém, ou ainda tido como esnobe, decidiu averiguar com seus próprios olhos o que estava acontecendo. Antes ligou para a sua ex-mulher dizendo que algo estranho estava a ocorrer no prédio. Ela lhe mandou a merda, disse que a deixasse em paz, não bastava o inferno que ela tivera de passar ao seu lado? Queria agora lhe torturar também? Chocado com a reação hostil da mulher, ligou para o sindico do prédio que, surpreso, não imaginava como ele, o esquisito, tinha o número do seu telefone se ele não falava com ninguém?

O que? Respondeu o síndico com a voz embargada de sono. É isso mesmo, um assalto no prédio. Assalto no prédio? Repetia o síndico. Estão roubando os apartamentos do ultimo andar, eu ouvi tudo. Não, eu não estou ouvindo nada, mas faz o seguinte: chama a polícia. Não, nada de polícia, polícia não. Nós temos que pegá-los em flagrante. Nós? Não. Você está maluco, fica dentro de casa, não é nada. Fica quietinho aí.

O síndico desligou o telefone, se dirigiu à janela, abriu bem os vidros e colocou a cabeça para fora de maneira a aguçar os sentidos auditivos. Ouvi alguns rumores, uma espécie de som abafado, como se fosse uma voz tentando gritar, porém sendo tapada com a ajuda de algum pano, ou talvez com as mãos. Não é nada, deve ser uma festinha, apenas jovens se divertindo. Melhor voltar a dormir.

O vizinho do 302 percebeu que estava por sua própria conta e risco, que havia chegado a hora, o país lhe chamava a ação. Abriu a porta suavemente sem fazer nenhum barulho, e logo viu homens em trajes civis, de óculos escuros, retirando nas costas pessoas com as mãos amarradas e capuzes na cabeça. Não levavam móveis, nem eletrodomésticos, nem caixas de jóias ou cofres de dinheiro. Respirou aliviado, ainda bem, eram apenas os seqüestradores. Fechou a porta e tratou de dormir.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Feliz Aniversário!


- Colher pequenos frutos; é disso que a vida é feita.
Conte-nos outra história, pai; pediram os meninos crentes da sabedoria oculta do velho. Crédulos como são os filhos, nem tanto pela pretensa e cumulativa habilidade de decifrar enigmas que possuem os pais, mas muito mais pela presença monolítica, pelo sentimento que só os super-heróis de histórias em quadrinhos são capazes de desperta em nós. Isso era o que sentiam ao olhar para o velho.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A Lisboeta

Sonhei ontem à noite com uma jovem portuguesa. Seus cabelos eram curtos e castanhos, o rosto delicado, sorria com os olhos. Chamava-me por um nome que agora não lembro, ou que talvez não tenha compreendido. Estávamos em Portugal numa estação de trem. Sei que ela existe, sei que em algum lugar as pessoas com quem sonhamos respiram e também recordam de nós, e vivem com essa impressão, ás vezes quase um mal estar, de que alguém, um estranho, a elas está conectado. Desconhecemos em absoluto a face desse processo, porém o sentimos como coisa concreta. A menina sorria e a mim dirigia um afeto que só os amantes são capazes de tê-lo. Ela é como uma realidade que acontece alheia a minha vontade, existe de fato naquele espaço, no desejo e na carne.

Estou em um lugar cercado de árvores, como se fosse uma clareira, onde há uma piscina e uma tenda com teto de palha. No rádio toca uma cumbia. É verão e todas as pessoas falam espanhol entre si. Alguns brincam com bolas de plástico coloridas e colchões infláveis, outros dançam lascivamente exibindo os corpos em trajes mínimos. A tarde tem cheiro de celebração. Uma mulher jovem, não muito distante da adolescência, seu olhar é atrevido, quase uma provocação, puxa uma cadeira para perto de mim - estou sentado, pernas cruzadas, folheando um jornal - encosta o joelho no meu e se escorra no braço da cadeira para me falar ao ouvido. Pergunta se conheço Portugal. Sei que ela já sabe a resposta, a verdadeira, porém, digo que jamais estive lá, não reconheceria o lugar nem por fotografias. Ela balança a cabeça e solta uma risada, o gozo contido nesse som também me deixa um sorriso estampado no rosto. Não consigo contê-lo. “É a sua chance de mudar a nossa vida”, ela diz. Nossa vida, ao invés de nossas vidas; pressuponho que somos como pedaços de metais imantados. Ela se vira e segue em direção ao burburinho da piscina.

Não importa se existimos aqui ou em Portugal, o tempo escorre vagarosamente enquanto escrevo. O sol está forte e o vento sopra em mim a impressão de que não há tal coisa como o agora e o depois, nem as lembranças que se acumulam sem que na verdade as desejemos. A Lisboeta dos olhos sorridentes mantém os lábios quase que colados ao meu rosto, o hálito morno e adocicado, posso senti-lo arranhando minha pele. Talvez ela esteja dizendo que nos encontraremos novamente, muito em breve, ou, ainda, que me espera em qualquer tempo, seja no sol do pacifico ou num sonho abafado de fevereiro, ou quem sabe, simplesmente estejamos ali, infinitos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

terça-feira

Não sei se mantenho o guarda-chuva fechado ou aberto. Parece que ele além de reter a chuva, segura também em suas hastes a passagem do tempo, mas é difícil mantê-lo aberto enquanto caminho. Há vento na chuva, ou, talvez, o contrário, há vento demais nessa chuva miúda e teimosa. Desvio das armadilhas nem tão brandas da calçada; lajotas em falso, mármores partidos, pessoas deitadas no chão e um pouco de lixo deixado para trás pelo caminhão da coleta. Penso, enquanto caminho, porém não medito sobre o ato de caminhar, ele é involuntário, se determina por leis próprias, que estamos todos imbuídos desse sentimento infatigável de perda e solidão. Apesar disso, ou, talvez por isso, ele, esse sentimento difuso, que não é simples nem único, é que o que liga nossos guarda-chuvas vermelhos num frêmito de compaixão.

Acabo de ouvir estampidos de tiros. Sim, tenho certeza, o som é inconfundível. Vejo através do recorte da janela pessoas saindo das lojas e escritórios, invadindo as calçadas, curiosos e incrédulos, talvez compadecidos, para assistirem o resultado da tragédia que suponho ter acontecido, ou, talvez, simplesmente temerosos de que o mesmo fim os aguarde. Pensam, sem muita convicção, que existe sim uma maneira de evitá-lo, que essas coisas, eventos trágicos e violentos, ocorrem apenas com certo tipo de pessoas. Nunca conosco, com os que são próximos, com os que amamos. Nunca se está suficientemente preparado para qualquer situação, nem felicidade extrema ou desgraça aviltante, nem para a morte ou nascimento, por entre nossas bem erguidas linhas de defesa infiltra-se, silenciosamente, como um vírus, a presença insidiosa do inevitável.

Ouço as sirenes da polícia, ambulâncias, o tráfego é interrompido. Alguém agoniza lá fora, na calçada úmida da João Pessoa. Ainda resta mais da metade do tempo desta terça-feira. A tarde será longa, preguiçosa e arrastada como as tardes devem ser, o almoço nos convida ao sono, mas o relógio nos impele ao trabalho. A chuva, mesmo persistente, é pacifica, em contraste a nós próprios, ainda que aposentados, soldados da fortuna, hoje empunhamos guarda-chuvas, não mais a lança. Alguém deixou escrito numa página: a existência não é a perfeição, mas é necessária.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O anjo pálido



“Eu precisava saber de outra coisa, outra coisa me impelia: naquela ocasião eu precisava saber, e saber o quanto antes: eu sou um piolho, como todos, ou um homem? Eu posso ultrapassar ou não! Eu ouso inclinar-me e tomar ou não! Sou uma besta trêmula ou tenho o direito de... “
Um febril Raskólnikov á Sônia Semeónovna

Creio que tudo que poderia ser dito sobre Crime e Castigo, obra-prima de Fiódor Dostoievski, já foi dito, escrito e reescrito. Obra ímpar que nos arrasta junto com a alma torturada de Raskólnikov, após matar uma velha usurária e sua irmã a machadadas, através de uma São Petersburgo lúgubre e impiedosa. Febril é o estado da alma. A culpa reclama o castigo, afirma Dostoievski em carta expondo a idéia central do romance: “O castigo pelo crime amedronta muito menos o criminoso [...] porque ele mesmo o reclama (moralmente).” Leitura obrigatória.

“...Bem, mas isso suponhamos, aconteceu durante a doença, no entanto veja mais uma coisa: matou, mas se considera um homem honrado, despreza as pessoas, anda por aí como um anjo pálido.”