quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Café Ancien

Existe no centro da cidade, numa rua pequena de prédios cor de chumbo, um café que permanece intocado pelo tempo. Desde que o conheço é o mesmo, o balcão marrom com a barra dourada para apoiar os pés, os espelhos laterais próximos das mesas de mármore, os cinzeiros de vidro transparente. Lá no fundo a escada em caracol que leva aos banheiros. Desconfio que seja o único – o último – lugar em toda a Porto Alegre onde ainda se pode fumar. Nunca fumei, mas quando venho aqui tenho vontade de fazê-lo e de me transformar num desses velhos de colete de lã, camisa xadrez e calça de linho. Eles formam o que eu chamo de assembléia dos anciãos da aldeia. Fumam e bebem café preto enquanto manuseiam o destino da humanidade como hábeis titereiros que são. Decidem se os planos e desejos dos homens se realizarão ou se tudo não passará de quimeras. Se a mulher de cabelos loiros, ainda molhados do banho, que caminha apressada levando a bolsa prensada contra o corpo, chegará ao serviço a tempo de evitar a segunda advertência no mês, ou se o chefe dela ficará preso no cruzamento entre a Rua Borges de Medeiros e a Avenida Ipiranga, devido ao acidente que ocorrerá se o caminhão de gás, que trafega na outra mão da avenida, esticar a velocidade de modo a pegar o último vapor de sinal amarelo, antes que ele se torne vermelho, e o menino de mochila preta, moletom e capuz na cabeça, coloque um dos pés, como é destro por instinto será esse, na listra branca da faixa de segurança. Talvez ele nem pense nisso, se devia ou não esperar os carros pararem em definitivo, porque a música que escuta no fone de ouvido é tão perfeita que tem o poder de fazê-lo sentir-se como se estivesse num filme e tudo a sua volta é inofensivo, que todos – o jornaleiro, os pedestres, os motoristas – também são atores e como ele sabem de antemão o que devem fazer. Talvez um pressentimento, uma sacudidela nos fios que o prendem, o faça parar e não prosseguir. A verdade é que ninguém sabe o que os velhos tramam, nem os motivos. Velhos demiurgos aposentados.

Adoro vir aqui e tragar esse aroma de café e cigarro. O valor do expresso é justo e o copo de água mineral com gás é por conta da casa. As garçonetes são mulheres de meia-idade, simpáticas, donas de corpos que ainda exalam vitalidade, conforme o gosto da freguesia. A atendente do caixa é a mais jovem, uma balzaquiana de cabelos negros, olhos fulgurantes que me consomem como fogo em papel. Tenho vontade de convidá-la para sentar e tomar um café, mas confesso que a cantada está longe de ser original, ainda que honesta.

Os velhos não temem o tempo, aqui ele não os alcança, perde seu efeito ferruginoso. Sinto-me confortável entre eles. Imagino que me aceitam porque sabem que eu partilho de seus segredos e que venho observá-los porque um dia assumirei uma dessas cadeiras ou, talvez, eu já esteja aqui há tanto tempo que nem percebi. Talvez um outro eu ande por aí, prisioneiro das horas, correndo de um lado para o outro, tentando valer-se de algum indício de realidade. Talvez um dia ele passe em frente ao Ancien e imagino que não ficará surpreso ao me encontrar, pois o fato é que tem me procurado desde sempre. Os anciãos o conduzirão até a minha mesa e eu lhe pagarei um expresso á moda da casa.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Alice

Fábio sai do quarto deixando a porta entreaberta. Acende um cigarro e fica no escuro observando a brasa arder.

- Não agüento mais esse colchão, está acabando com a minha coluna. ttssc... Preciso parar de fumar.

Dá mais algumas tragadas e amassa a bituca no velho cinzeiro de plástico. Volta para o quarto e logo repara as janelas abertas, a cama vazia. Alice não está. O cérebro não compreende o que vê. Olha ao redor e não encontra nada. Fábio era um homem pragmático, acreditava na lógica. Aquilo que não possuía esse atributo não merecia crédito. Caminha até a janela decidido a fechá-la, mas antes tenta prender as cortinas que se agitam no ar. O vento que entra da rua é gelado. Este pequeno detalhe - o vento gelado no rosto – e o inesperado sumiço de Alice aparentemente desprovido de significado fazem-lhe sentir um arremedo de raiva, um desprezo quase infantil. Talvez ela estivesse em outra parte da casa se escondendo, fazendo jogo, talvez tentando seduzi-lo. Talvez. Mas ele não gostava de surpresas. Fábio apreciava como ninguém a ordem. Ajeita as calças do pijama e distrai-se ao contemplar o formato que as nuvens adquirem com a rajada de vento. Enquanto se regozijava brevemente com essa visão, Alice surge do escuro num pique desatinado e joga-se contra ele. A janela bate algumas vezes com força tirando da madeira um grito estridente. O corpo de Fábio paira no ar numa infinidade de segundos como se pudesse voar. Fábio sabe voar, pensa Alice. O som do corpo chocando-se contra o chão é tão violento que poderia acordar toda a vizinhança e mais alguns quarteirões. Alice fita o céu azulado.

Fazia um belo dia lá fora apesar do frio. A bruma da noite anterior se agarrava nas árvores e no gramado dos quintais. O sol se erguia aos poucos distendendo seus braços raiados sobre a terra, refletindo um pouco na poça de sangue que circundava Fábio. Sentia o corpo dormente, não conseguia movê-lo, não entendia o que estava acontecendo. Era como se sua consciência houvesse se fragmentado em duas partes; uma presa ao corpo e outra a cabeça, no entanto não podiam comunicar-se. A cabeça mandava o corpo mover-se do chão. O corpo, sem sucesso, dizia para Fábio despertar. Teve o desejo de falar, chegou até imaginar que estivesse falando, mas não conseguia discernir os pensamentos. Os dedos da mão esquerda batiam ininterruptamente na calçada. Sentiu-se cansado. Teve vontade de fechar os olhos.

Alice voltou para cama, fechou os olhos e deixou que a mente fluísse. Percorreu todas as peças que compunham o quebra cabeça de sua vida, os mistérios e atos que haviam lhe trazido até o presente momento. Relembrou algumas músicas e pensou nos livros que havia lido quando jovem. Viu inúmeros rostos e dentre eles reconheceu Fábio. Os olhos lúgubres e silenciosos, a barba cerrada, os sulcos que marcavam a face morena. Aquela imagem distante estava arraigada à sua memória como se fosse a extensão de um braço, e a consciência desse fato lhe causou estranhamento. Durante todos aqueles anos fora assombrada pela certeza de que as coisas jamais mudariam. Era um nó na garganta, um suspiro que escapava sem querer. A mesma casa, as mesmas cores, os mesmos convidados nas festas de Natal. Não entendia porque se entregar à complexa e vã necessidade de cumprir todos os rituais daquela vida comezinha e perceber que não havia nada de humano naquilo, nada que lhe trouxesse o frescor ou mesmo a agonia de estar viva. E assim foram os domingos de almoço, as intermináveis tardes de chá, as noites vazias. Sorrisos ecoavam como fantasmas pelos cômodos desabitados da casa. Para outras pessoas o futuro podia até ser impenetrável, para Alice era real. E tudo que ele havia trazido era uma pequena propriedade na praia. Uma casa branca com janelas verdes encravada na encosta de um morro, de frente para uma praia imensa de águas turvas e geladas que açoitavam as pedras. A visão se perdia entre o céu e o mar, tudo parecia demasiadamente distante. Por todos os lados via-se apenas solidão. Alice era o refúgio do mar.

O resto era trocar objetos por outros objetos e todos tinham seu tempo definido e desapareciam sem deixar nenhum vestígio. Assim devia seguir a vida. Talvez a única coisa que pudesse alterá-la fosse a morte. Não interessava quem fosse morrer, mas só através dela poderiam ver o quanto desejaram e pouco que haviam conseguido. No entanto esse dia não veio. Desde então Alice não pôde mais dormir tranqüilamente, não pôde nem mais sonhar. Parecia que o ar não lhe chegava aos pulmões. Tinha a sensação de estar se transformando em mármore. Fábio nunca se esforçou para compreender além daquilo que via. Não entendia a aflição muda que consumia Alice, seu olhar absorto em algo que nunca estava lá. Aquele silêncio também acabou por envolvê-lo. Fábio não podia tocá-lo e passou a sentir um desassossego que lhe cortava a alma e reconheceu em Alice a origem do seu mal estar. Tornaram-se estranhos num mundo sem portas. Mas agora nada disso importava.

Naquela manhã Alice adormeceu tapada de cobertas até o pescoço, quase não conseguia respirar. Deitada na cama, que agora lhe parecia muito grande, foi acolhida por um sentimento tão terno e familiar que imaginou estar em sua antiga casa, quando ainda era uma menina de olhos miúdos. Dormiu assim até escutar o som da campainha e a multidão de vozes e passos que se aglomeravam na soleira da porta.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Asobi Seku

Não sei se os dias me ultrapassam ou se tão somente me consomem. O dicionário define ultrapassar como o ato de ir além; transpor, exceder, e com certeza os dias o fazem, vão muito além do que eu sou capaz de suportar. A primeira definição de consumir é destruir (-se) totalmente, já a quinta é fazer uso de; utilizar, gastar. De qualquer forma por ambos sou deixado para trás, assolado pelos golpes do mundo.
Com certa apreensão aguardo Nicolas ligar pedindo que o encontre com o carro em boas condições, é o que nós dois esperamos, e isso fica implícito na conversa. Ele está em perfeitas condições, não há com o que se preocupar.

Um dia como o de hoje cansa. Um dia consagrado a espera, no entanto foi a única coisa que me restou. É como estar num buraco esperando alguém para me tirar de lá. E talvez esse alguém já esteja me aguardando, na beira do fosso, com uma pá de terra nas mãos. Não quero soar paranóico - psicose caracterizada por um conceito exagerado de si mesmo e idéias de perseguição, reivindicação e grandeza, que se desenvolvem progressivamente, sem alucinações. Gosto de encontrar o verbete correto. Ele já devia ter ligado. Agora vou ficar empenhado com esse carro. Logo mais vai ser noite, a vizinhança vai estranhar. São esses os sinais de que o dia começa a se exceder, o inominável passa a nos espreitar. Ele é a forma reversa de todos os atos e coisas que existem.

O telefone descansa na mesa de centro, as luzes da rua estão acessas e o sol deixou uma réstia alaranjada no céu. Não posso mais esperá-lo. Sinto a movimentação interna dos objetos, tão denso como se fosse o frio suspenso no ar, as sombras tornaram-se mais negras. Tempo esgotado. Pego a chave do carro, abro e fecho a porta com a suavidade que o silêncio exige e quando coloco a mão no corrimão da escada que me levará para fora do prédio, ouço o som inconfundível do telefone celular ressoando pelo corredor, um som limpo e estridente que se repete com persistência. Levo a mão ao bolso da calça, apesar de já saber que o esqueci em cima da mesa de centro. Azar. Pulo alguns lances de escada e quase deixo o molho de chaves cair. Por algum motivo que desconheço não há ninguém na portaria. Antes de chegar até a grade do prédio vejo um homem se aproximando do carro. O inominável. O dicionário define-o assim: o que não pode ser designado por um nome. Contudo, não é apenas isso, o que não tem um nome que o manifeste, é aquilo que não pode ser representado por nada que exista nesse mundo, é aquilo que excede nossa compreensão.

Assim que meus pés tocam a calçada saio correndo. O mundo ao meu redor, pelo menos parte dele, o pedaço que ainda reconheço, canta-me uma melodia suave - voz e violão. A música é familiar, a voz de uma mulher. Vejo Nicolas do outro lado da calçada sorrindo o seu sorriso de dentes falhados, acenando sua mão muito clara repleta de sardas. Uma luz esbranquiçada se derrama por sobre a rua de pedras negras, tenho a visão cegada. A cena lembra-me um dia de praia onde tudo reflete a claridade insuportável do sol. Tenho a impressão de que tudo, todas as coisas: carros, árvores, lixeiras, postes, guaritas, convergem em minha direção. O mundo pulsa e encolhe até escuridão. Nicolas põe as mãos no bolso, seu sorriso está quase no fim, não entendo o que ele diz. Ouço apenas a voz da mulher que canta, é japonês o seu idioma e, não sei bem o porquê, posso compreendê-lo.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Teia de Aranha

Os minutos aqui dentro se arrastam enquanto lá fora o mundo explode. Alguns estão bebendo desde a manhã, outros iniciaram agora à noite e creio que poucos, assim como eu, não o fazem. Não posso afirmar que o álcool seja o único responsável pela euforia das pessoas nem por todo esse bombardeio, é apenas efeito de mais um final de ano. Apesar de já tê-lo vivido uma infinidade de vezes ainda estranho essa histeria que impregna o ar. Estranho também essa forma de contar o tempo - períodos de 365 dias - não sei qual o significado, como chegaram até ele. Não sinto diferença de um ano para o outro, me parece que o peso das mudanças só chega quando já estamos de mãos vazias incapazes de agir. O mais importante não é contar os dias, mas retê-los e isso eu não fui capaz de fazer. Ninguém foi. Se não fosse pelas olheiras profundas, por alguns cabelos brancos e a calva avançada, poderia dizer que parei no tempo. O ano de 2009 se esvai pelas ruas, que venha 2010.

Observo uma aranha organizar seu ritual de morte para um inseto que por azar, ou por descuido, caiu em sua teia. Ela não o mata logo de inicio, antes dá inúmeras voltas em torno dele, indo de uma extremidade a outra da teia. Depois se aproxima e recua. Repete o movimento mais algumas vezes até que por fim encosta nele desferindo o golpe fatal. Tenho vontade de esmagá-los.

Intensificaram o bombardeio, estamos a menos de 20 minutos do ano novo. Ouço também a voz de minha mulher. Ela, mais um casal de amigos e meus pais querem fazer a contagem regressiva na beira da praia. Desejam ver com seus próprios olhos o milagre do ano novo surgir do mar.

Ao contrário do que pensei o inseto continua vivo se contorcendo na teia. A aranha está imóvel numa das pontas, observando-o com parcimônia. Quando for da sua vontade ela acabará com o jogo. Ela detém um poder demiurgo em suas patas esquálidas e minúsculas. Ela, um inseto insignificante. Não posso matá-los. Vejo o rosto de Vânia contorcido pela impaciência. Chegam até meus ouvidos reclamações; falta de consideração, é tudo que ela consegue dizer e o repete uma infinidade de vezes. Heitor surge na porta. É fim de ano, gente! Não sei por que ele utiliza essa expressão, “gente”, como se ao lançar mão dela estivesse a dissipar a diferença entre nós todos. Olho ao redor e largo a caneta em cima da mesa.

Não sei quanto faltava para meia-noite quando saímos de casa. No céu estouravam fogos coloridos, estrelas e rabos de foguetes. Gritos cortavam o ar sufocado. Tudo se movia assustadoramente. Pessoas que mais pareciam fantasmas num campo batalha, aturdidos pela morte brutal e repentina, surgiam de todos os lados, brotavam do útero da penumbra. Chegamos à beira da praia a poucos minutos da meia-noite. A comoção se espalhava com o vento, senti um mal estar próximo a náusea. Alguns corriam, outros se abraçavam, tiravam fotos, carregavam champagnes, fogos de artifício. Os malditos fogos explodindo no céu. O prenúncio de uma tragédia. Eu via a morte nos espreitando como se ela fosse a aranha na ponta da teia. Alguém falou comigo, mas vi apenas a sombra, metade dela, sussurrando-me palavras. O que ela disse foi encoberto pelo barulho de uma explosão gigantesca, seguida de um clarão que deixou o céu manchado. Corri desabalado em direção ao mar, entrei até onde deu pé, depois caí. Tentei nadar. A água estava gelada, estranhamente pegajosa.

A partir desse momento os fatos não mais obedecem a uma ordem, recordo-me de imagens como se fossem fotogramas dispersos de uma película. Vejo algumas pessoas me retirando inconsciente do mar e depositando meu corpo na areia. Vomito muita água. Vânia em desespero me abraça. Aquele não é o seu rosto, mas sei que é ela. Tento ficar em pé. Rolo pela areia úmida, os mortos me agarram, querem me enterrar com eles. Seus ossos cortam minha carne, rasgam minhas roupas. Preciso me desvencilhar. Vânia está sentada no chão abraçada em seus joelhos. Sinto-me aprisionado como o inseto. Abre-se uma brecha, um facho de luz me atinge. Nu, corro pela rua de pedras escuras.

O quarto é o da casa da praia. Escuto vozes ao fundo, talvez venham da rua. Não lembro quase nada da noite anterior, exceto a imagem da aranha e de sua presa. Levanto e me dirijo à cozinha. Procuro pela teia que estava estendida entre a parede e o armário, próximo ao piso. Nem sinal deles. Sinto os olhares pesando sob minhas costas. Estão todos lá fora me vigiando, empapados de protetor solar, fingindo que tomam banho de sol. Volto para o quarto

Nesse mesmo dia Vânia trouxe-me de volta á Porto Alegre. Durante a viagem falou sobre coisas absurdas que eu teria feito na noite do Ano Novo, que havia me comportado como um louco. Perguntou-me diversas vezes se eu havia ingerido bebida alcoólica, ao final disse que iria pedir o divórcio. Respondi uma merda qualquer e tratei de dormir. Já sei o que virá a seguir, conheço a receita: aumentar a dosagem dos remédios, outro antidepressivo, um regulador de humor, quem sabe um novo psiquiatra. Não faz diferença. A aranha se move em silêncio.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

tentando escrever

Escrever é um exercício de natureza tão radical e severa que sinto-me tragado por esse tour de force, com a necessidade de ir mais ao fundo, a perder de vista o ponto de retorno, cambaleando pelo território inóspito. Escrever é flertar com tudo que há de terrível e sublime no dorso do tempo. Vejo uma jangada á deriva no mar, a vela sobraçando ao vento, milhares de braços a aguardam. Vejo-me de terno e gravata carregando uma pasta de couro vazia, perambulando apressado pelas ruas do centro, como se de mim dependesse muitas decisões. Talvez eu seja o ministro de algum país africano esquecido no Brasil, disfarçado de velho Marcelo. Vejo o futuro e um pouco de passado, vejo também o Lou Reed cantando “Coney Island Baby”, e nem preciso abrir ou fechar os olhos, apenas sigo tentando escrever.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Notícia de Jornal

Desceu do ônibus sem pestanejar assim que a porta abriu. Desceu na parada pouco iluminada sob a imensa avenida que parecia não ter fim. A faixa negra de asfalto era com uma artéria seccionando um corpo gigantesco. Nem pensou, apenas deixou os pés tocarem o chão e correu para qualquer lado. Correu na contramão dos carros que àquela hora da noite eram bem poucos. Os passageiros que permaneceram no coletivo nem viraram a cabeça para ver aonde iria o rapaz em sua fuga desabalada. Acharam que ele havia feito alguma coisa ali dentro, provavelmente roubado alguém, e por isso descera. Grande merda; estavam acostumados a ver bem mais do que isso. Bater carteira era aperitivo de criança. O ônibus prosseguiu e depois dobrou a primeira esquerda.

Correu bem mais do imaginou que suas pernas agüentariam. Sentia o coração na boca batendo contra a murada dos dentes. O corpo pediu que parasse e então se curvou levando as mãos à altura dos joelhos. Respirava com dificuldade e achou que fosse perder os sentidos, porém não desmaiou. Sentou-se no meio-fio da calçada. O ar parecia que não lhe chegava aos pulmões. O homem perde-se á noite, perde o rumo dos pensamentos. Riu-se á toa sacolejando as pernas dormentes, ria do improvável que o trouxera até ali e ria porque se sentia estranhamente livre, mesmo que no fundo condenado. O que é uma arma na cabeça senão um metal gelado, inerte, tão ridículo quanto sua própria natureza? Para que serve um revólver? Não importa, era sua responsabilidade. Ergueu-se com certa dificuldade, também com certo alívio, a descarga de adrenalina o revigorara. Tentou orientar-se buscando algum ponto de referência na escuridão. Viu um posto de gasolina numa esquina não muito distante e alguns metros á frente a cruz de uma Igreja. Não havia melhor indicação. A cruz envolta em neon vermelho brilhando igual letreiro de cabaré. Estava perto, muito perto.

Pôs-se a correr novamente, dessa vez cadenciando os passos como se fosse um maratonista. Não erguia muito os joelhos nem sacudia os braços em demasia. Agora pensava que era uma locomotiva negra e robusta correndo nos trilhos incomensuráveis do destino, ganhando velocidade, rasgando o útero da noite. Após galgar o posto de gasolina tirou das calças um revólver prateado com cabo escuro de madeira. Pesava tanto em sua mão que diminuiu ainda mais a passada, quase trotava. Sentiu-se tentado a dar uns disparos para o alto como se fosse um bandoleiro chegando num vilarejo montado em seu cavalo. Concentrou toda a energia que lhe restava e deu um pique em direção a Igreja com a arma em punho. Parecia até que explodiria o lugar ao chocar-se contra ele. Bendito homem-bomba. Nem chegou a ouvir os estampidos, sentiu apenas o impacto e o calor dos tiros alojando-se no peito. Não teve tempo nem de prender a respiração. Ficou lá jogado no chão até o dia clarear e o sol resplandecer na poça de sangue. Foi recolhido pelo carro do IML enquanto as pessoas se dirigiam ao trabalho.