quinta-feira, 1 de julho de 2010

tentando escrever

Escrever é um exercício de natureza tão radical e severa que sinto-me tragado por esse tour de force, com a necessidade de ir mais ao fundo, a perder de vista o ponto de retorno, cambaleando pelo território inóspito. Escrever é flertar com tudo que há de terrível e sublime no dorso do tempo. Vejo uma jangada á deriva no mar, a vela sobraçando ao vento, milhares de braços a aguardam. Vejo-me de terno e gravata carregando uma pasta de couro vazia, perambulando apressado pelas ruas do centro, como se de mim dependesse muitas decisões. Talvez eu seja o ministro de algum país africano esquecido no Brasil, disfarçado de velho Marcelo. Vejo o futuro e um pouco de passado, vejo também o Lou Reed cantando “Coney Island Baby”, e nem preciso abrir ou fechar os olhos, apenas sigo tentando escrever.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Notícia de Jornal

Desceu do ônibus sem pestanejar assim que a porta abriu. Desceu na parada pouco iluminada sob a imensa avenida que parecia não ter fim. A faixa negra de asfalto era com uma artéria seccionando um corpo gigantesco. Nem pensou, apenas deixou os pés tocarem o chão e correu para qualquer lado. Correu na contramão dos carros que àquela hora da noite eram bem poucos. Os passageiros que permaneceram no coletivo nem viraram a cabeça para ver aonde iria o rapaz em sua fuga desabalada. Acharam que ele havia feito alguma coisa ali dentro, provavelmente roubado alguém, e por isso descera. Grande merda; estavam acostumados a ver bem mais do que isso. Bater carteira era aperitivo de criança. O ônibus prosseguiu e depois dobrou a primeira esquerda.

Correu bem mais do imaginou que suas pernas agüentariam. Sentia o coração na boca batendo contra a murada dos dentes. O corpo pediu que parasse e então se curvou levando as mãos à altura dos joelhos. Respirava com dificuldade e achou que fosse perder os sentidos, porém não desmaiou. Sentou-se no meio-fio da calçada. O ar parecia que não lhe chegava aos pulmões. O homem perde-se á noite, perde o rumo dos pensamentos. Riu-se á toa sacolejando as pernas dormentes, ria do improvável que o trouxera até ali e ria porque se sentia estranhamente livre, mesmo que no fundo condenado. O que é uma arma na cabeça senão um metal gelado, inerte, tão ridículo quanto sua própria natureza? Para que serve um revólver? Não importa, era sua responsabilidade. Ergueu-se com certa dificuldade, também com certo alívio, a descarga de adrenalina o revigorara. Tentou orientar-se buscando algum ponto de referência na escuridão. Viu um posto de gasolina numa esquina não muito distante e alguns metros á frente a cruz de uma Igreja. Não havia melhor indicação. A cruz envolta em neon vermelho brilhando igual letreiro de cabaré. Estava perto, muito perto.

Pôs-se a correr novamente, dessa vez cadenciando os passos como se fosse um maratonista. Não erguia muito os joelhos nem sacudia os braços em demasia. Agora pensava que era uma locomotiva negra e robusta correndo nos trilhos incomensuráveis do destino, ganhando velocidade, rasgando o útero da noite. Após galgar o posto de gasolina tirou das calças um revólver prateado com cabo escuro de madeira. Pesava tanto em sua mão que diminuiu ainda mais a passada, quase trotava. Sentiu-se tentado a dar uns disparos para o alto como se fosse um bandoleiro chegando num vilarejo montado em seu cavalo. Concentrou toda a energia que lhe restava e deu um pique em direção a Igreja com a arma em punho. Parecia até que explodiria o lugar ao chocar-se contra ele. Bendito homem-bomba. Nem chegou a ouvir os estampidos, sentiu apenas o impacto e o calor dos tiros alojando-se no peito. Não teve tempo nem de prender a respiração. Ficou lá jogado no chão até o dia clarear e o sol resplandecer na poça de sangue. Foi recolhido pelo carro do IML enquanto as pessoas se dirigiam ao trabalho.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Um blues para Morgan

Abri o jornal e li numa nota no canto inferior da página, quase no rodapé, que Peter tocaria à noite no Village. Garoto estúpido, não aproveitou nada do que eu havia lhe ensinado. De volta ao berço dos fracassados. O sujeito até podia ter algum talento, mas se ficasse muito tempo por lá acabava liquidado. A decisão veio num arroubo logo após de ter lido seu nome. É hoje. Larguei o jornal num canto.

Quando o conheci ele não era nem uma promessa, era apenas um vagabundo de fala mansa e olhar melancólico. Tinha o raro dom de tirar as músicas de ouvido logo nas primeiras audições. Não sabia ler uma nota sequer, mas conseguia reproduzir tudo que ouvisse com extrema fidelidade. Podia imitar qualquer um e este na verdade era seu talento. Copiava de seus ídolos até os trejeitos, a embocadura no instrumento, a maneira de segurar o cigarro e levá-lo á boca. No entanto, ninguém lhe dava credibilidade alguma, nem para fazer show de aquecimento. Já o meu caso era o contrário. Eu não saía do Village porque não era apradinhado por nenhum figurão, não tinha um rostinho bonito e não perdia meu tempo tocando música dos outros. Mas não era bem isso o que o público queria. Um dia, enquanto passávamos o som, ouvi o sopro de um trompete que mais parecia um lamento, vindo lá do fundo do bar. Vi o garoto sentado na cadeira, as costas arqueadas, tocando de olhos fechados. Parecia o Chet Baker com a franja caída sob o rosto. Na hora entendi o que me faltava para sair do Village. Resolvi me aproximar.
- Tem que parar de tomar pico, garoto!
Ele sorriu.
- Quer um trago?
Também não respondeu. Estava tão chapado que mal podia com o trompete.
- Vê se dá uma melhorada e passa aqui mais tarde para nos ver tocar.
Assentiu com a cabeça como se ela fosse de chumbo. Malditos viciados! Seria fácil convencê-lo a tocar minhas músicas, o problema todo era o que fazer para mantê-lo sóbrio. Mesmo assim estava decidido a arriscar. Peter apareceu no show e ficou feliz que alguém lhe desse atenção. Depois de bebermos bastante com os rapazes da banda, pedi que tocasse para nós “Stella by Starlight”. Ele fez então sua mise en scène e tocou como se fosse o próprio Baker. Todos aplaudiram. Dei-lhe uns tapas nas costas e com um gesto pedi que se aproximasse.
- Isso é pouco garoto, você precisa ir além. Ninguém vai te respeitar desse jeito.
Peter me olhou com um misto de raiva e constrangimento. Devolvi com uma piscadela e sorriso de deboche. Seguimos noite adentro até encontrar o sol nos aguardando na saída. Antes de nos despedirmos coloquei meu endereço no bolso da sua camisa e disse para me procurar quando curasse a bebedeira. Uma semana depois ele apareceu á minha porta com o case do trompete debaixo do braço, sua aparência estava boa. Deixe que entrasse e mostrei-me solícito. Ouvi toda sua história, as proezas sexuais, sua devoção pela música e ambições. E essa foi a deixa para que eu entrasse acenando com a mágica de fazer dinheiro. Seus olhos brilharam ao ouvi-la. Ele tocaria músicas minhas como se fossem composições de sua autoria. Ganharia crédito como artista e fama. Depois, sem que ele antes suspeitasse, eu surgiria cobrando meus direitos e revelando-me como o verdadeiro autor. Além da grana, ganharia espaço para mostrar meu trabalho. O reconhecimento viria naturalmente. Propus divisão de 50% de tudo que ganhássemos. Também impus como condição que não se drogasse durante a semana e nem antes dos ensaios. Aceitou sem titubear e perguntou quando começaríamos. Agora mesmo, respondi. O garoto era um demônio, ninguém tirava as notas como ele. No fim da tarde já executava uma música com perfeição. Fiquei extasiado. No dia seguinte estava lá novamente, ávido por jazz. Em nenhum momento reclamou de minhas composições, inclusive perguntou-me como eu não havia estourado com um material tão bom. Logo nossa engrenagem começou a funcionar. Descolei com o pessoal do Village alguns shows de abertura, depois o coloquei como atração principal. A recepção foi boa o suficiente para depois de algumas semanas colocá-lo no circuito local dividindo o palco com outros músicos. Enquanto eu compunha novas músicas, ocupava-me também de mantê-lo na linha. Cobrava dedicação absoluta e regulava seu uso de drogas. Formávamos uma dupla e tanto. Tratei de arranjar um agente, Charles, viciado em jogos, mas não em drogas, e o incumbi de conseguir a qualquer custo contato com uma grande gravadora. O rapaz era esperto, metade da cidade lhe devia algum favor, e conseguiu levar um figurão para vê-lo tocar. Entrei em cena e o convenci de que Peter era um tipo altamente vendável, de fácil aceitação pelo público, as mulheres não me deixavam mentir. Comprou a idéia. Ao cabo de um ano tínhamos um contrato com uma gravadora de renome, algum dinheiro no bolso e uma chance de ouro nas mãos. Adeus Village. Depois de alguns meses nos preparávamos para gravação do primeiro disco. Acertado o cachê, produção e onde ocorreriam as sessões, vi-me barrado por um brutamonte na porta do Studio. O sujeito dizia-me que eu estava proibido de entrar lá, não devia sequer colocar os pés na calçada. Enfiou um maço de dinheiro no bolso do meu paletó e me presenteou com um murro na boca. Perdi alguns dentes. Fiquei jogado na calçada até me arrastarem para viela ao lado e terminarem o serviço.

Descobri através de Charles que Peter negociava com a gravadora nas minhas costas e além de pedir que me tirassem da jogada, não gravou nenhuma de minhas músicas. O disco foi lançado na metade do ano e ao final dele era um sucesso de vendas. O garoto viajava o país em turnês, lançava mais discos e fazia cada vez mais shows e dinheiro. No entanto, eu tinha certeza de que era só questão de tempo até ele cair. Em turnê pela Europa foi preso com drogas, respondeu processo e teve de passar uma temporada na cadeia. Praticamente banido do velho continente, chegando aqui continuou em queda livre. Passou a ser visto com desconfiança. Drogava-se como louco, seus braços pareciam uma peneira de tantos furos. Não comparecia aos shows, não gravava mais discos. Torrou toda grana. O velho Village foi o único a aceitá-lo de volta. Foi o que nos restou e tínhamos contas á acertar.

Cheguei lá tarde da noite, faltando menos de dez minutos para o inicio da apresentação. Queria entrar sem que me notassem. A casa estava vazia. Velho Stu no balcão, Cora esperando para faturar em cima de algum otário e Durval, o doutor, o homem da medicação, rodeado pelos junkies. A mesma corja de sempre. Peguei uma mesa no fundo, afastada do palco e aguardei na penumbra. Peter, como de costume, estava atrasado. Subiu por volta da meia-noite completamente chapado, parecia um fantasma. O rosto envelhecido, entalhado como uma máscara mortuária, não lembrava em nada o garoto que eu conhecera. O som saía miúdo e fraco do trompete, era sofrível, sem vida. O ódio que eu acalentara no peito e trazia no bolso na forma de um calibre 38, foi sendo embotado por uma névoa espessa de tristeza. Nem lembrava há quanto tempo eu não tocava mais. Fui tomado de vertigem e de repente ouvi meu nome:
- A próxima música é para um amigo de longa data que hoje se encontra aqui conosco. Essa é para você, meu velho. Blues para Morgan.
E sorriu pela última vez.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Lobo Antunes

“O que eu gostava, por exemplo, de conseguir, sem ostentação nem vergonha, coroar a minha calvície nascente de um chapéu tirolês de pena. Ou de deixar crescer a unha do dedo mínimo. Ou de entalar um bilhete de eléctrico dobrado n aliança. Ou de atender os meus doentes vestido de palhaço pobre. Ou de lhe oferecer o meu retrato em coração de esmalte para você usar quando for gorda, porque será gorda um dia, descanse, todos nós seremos gordos, gordos, gordos e tranqüilos como gatos capados à espera da morte nas matinées do Odéon.”

Os cus de Judas - Antonio Lobo Antunes

Literatura

Adicionei links para os blogs de dois excelentes escritores. Meu grande amigo, Daniel Rocha, e o muito gente boa, Professor Pedro Gonzaga.
Vale a pena!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Skinny Girls

Veio em minha direção sorrindo, beijou meu rosto, nossos corpos se tocaram. Involuntariamente passei a mão pela sua cabeleira lisa. Desencontramo-nos estranhamente. Ela prosseguiu serpenteando por entre as classes. Sentou-se perto da janela. Tive vontade de fazer o mesmo, sentar-me ao seu lado e tocar novamente seu cabelo, embrenhar a mão nele. Creio que alguém me sussurrou algo, cheguei um pouco para o lado deixando assim a passagem livre. Ela o fez novamente, dessa vez a minha espalda. Olhei por cima do ombro e vi apenas seu vulto longilíneo. Magra, quase sem bunda, nem seios. Sua boca movia-se como se fosse me engolir. Descobri que ela era quinze anos mais nova do que eu. Sentia uma vergonha danada, ficava desconcertado ao seu lado. Fez um gesto com o dedo como a chamar uma criança, depois deu dois tapinhas na almofada da cadeira. Olhei ao redor e vi muitos outros olhos a me espiar. Ela sorria um meio sorriso sem mostrar os dentes, cheio de violência, e repetia o gesto batendo na almofada. O que um homem faz numa hora dessas? Aceitei o papel de bobo, sentei. Quando virei a cabeça buscando sua boca, encontrei um rosto envelhecido com a pele enrugada. A mão que repousou na minha perna estava enrijecida e torta como a garra de um animal. As horas ainda nem haviam passado para nós, era noite lá fora, havia estrelas no céu. A voz retornou aos ouvidos, o hálito quente causou-me arrepios. Encolhi o pescoço, ela tentou mordê-lo. Deu um tapa na minha bunda e foi se afastando da porta até chegar ao corredor. Passou a mão pelos longos cabelos. Ficou estaqueada me olhando, sabia tudo, podia ler os meus pensamentos. Sorriu brevemente, depois moveu os lábios e o nariz como se fosse uma gata. Olhei o relógio e só então percebi que a aula havia terminado, não tinha mais ninguém na sala. As luzes se apagaram lentamente e a mão segurou com força minha perna.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Magnum Espetacular

A visão do circo prendeu-lhe a atenção. A lona branca encardida da fuligem, as bandeirolas esfarrapadas dependuradas no mastro, o acende-apaga intermitente das lâmpadas no letreiro. Não conseguiu ler o que estava escrito ou talvez o tenha feito, mas não reteve o nome na memória, impressionado que ficou com a sujeira da lona. Circo de pobre. Não por acaso estava acomodado na entrada de uma Vila. Se por fora é assim, imagina o que são os palhaços, pensou com desdém e certo rancor. Logo em seguida envergonhou-se do que acabara de pensar e sentiu raiva de si mesmo, do circo e dos pobres.

Fechou o caderno vermelho, guardou-o dentro da pasta marrom e levantou-se da mesa aflito, não sem antes olhar para os estudantes absortos em seus livros. No mínimo duas vezes por semana ia até a sala de estudos da Faculdade que ficava próximo ao seu trabalho para escrever. Sentia-se mais concentrado ali, longe dos barulhos que a mulher fazia no pequeno apartamento. Perturbava-o imensamente o som da tevê, os diálogos insossos dos atores, o intervalo comercial. Ela então o chamava, pedia que viesse até a cama. Detestava esses momentos mais do que a novela. Resolvera escrever para contar coisas que jamais pudera falar.

O circo permanecia lá instalado na avenida, próximo a faixa de segurança, em frente à Vilinha. Ou será que sempre esteve ali? É possível. Talvez estivesse lá há tanto tempo que ninguém mais o notava. O Magum Espetacular adormecido. Quando contou á esposa que iria fazer uma oficina de criação literária ela o olhou com indiferença, curiosidade e reprovação, tudo no mesmo olhar, mas nada disse. O que lhe causou uma apreensão insuportável que o impeliu a falar como se estivesse a justificar-se perante sua mãe. A mulher manteve o silêncio balançando a cabeça uma vez que outra e por fim deixou-o falando sozinho. E o assunto morreu ali mesmo.

Numa tabuleta negra, escrito a giz, lia-se o seguinte: o circo da Espanha. Que piada, pensou o homem após passar pela frente da tenda pela vigésima vez em dez dias. Ficava a caminho do seu trabalho, próximo a faculdade. O grande Magnum andrajoso, abandonado a própria sorte. E nesses dez dias jamais viu alguém entrar ou sair dele. Nem um funcionário na bilheteria ou perto dos trailers. Não via sequer outra pessoa nos seus arredores que não fosse ele mesmo a espreitá-lo, parado do outro lado da avenida.

Talvez estivesse pegando o jeito de escrever ou encontrando o fio narrativo da estória. Gostava tanto de ler que um dia imaginou que pudesse também escrever. Burilava o texto do conto com esmero. Como fora sugerido, andava com uma caderneta a tira colo, a cor era vermelha, anotando os detalhes do “Magnum Espetacular”, o grande circo da Espanha. Da pequena janela da sala onde trabalhava podia vê-lo. Não se lembrava do momento em que o alojaram lá. Tinha a sensação estranha de que ele sempre estivera ali. Não sabia como explicar. Viu as bandeirolas solitárias e o pisca-pisca das lâmpadas do letreiro, chamou-lhe a atenção a aparência suja e desolada. As luzes acessas desde a manhã até a noite sem que aparecesse viva alma. Dia após dia. Até que viu um homem parado do outro lado da avenida, mirando o circo com a mão sob os olhos para protegê-los do lusco-fusco do fim de tarde. Teve a idéia de escrever o conto. E agora passava todas as horas do seu dia pensando nele.

O homem atravessou a faixa num passo curto sem olhar para os lados. Entrou sem hesitar no recorte negro aberto na lona encardida que um dia fora branco. Permaneci na parada de ônibus com o coração apertado esperando que ele saísse de lá em pouco tempo ou que talvez mais alguém entrasse, ou que alguma coisa acontecesse. As luzes apagaram-se. Corri em direção ao circo ouvindo atrás de mim o alarido das buzinas. Guiava-me pelas bandeirolas que se aproximavam com velocidade, esfarrapadas no céu. Passei pela bilheteria vazia e entrei no breu da tenda. Havia um único facho de luz que iluminava dois palhaços que se batiam com luvas de boxe no picadeiro. Na arquibancada, á minha esquerda, um homem escrevia numa caderneta vermelha e a deixou de lado para assistir o espetáculo.

Fechou a caderneta, pegou o resto das coisas e deixou a sala de estudos. Ao invés de aguardar o ônibus abandonou-se ao impulso que o levou até a frente do circo, do outro lado da avenida. Fitou a tenda enorme, toda encardida, por breves minutos que pareceram intermináveis. Atravessou a rua sem olhar para os lados como se deslizasse no asfalto ainda quente do sol. Não havia ninguém na bilheteria. Distinguiu lá no fundo um facho de luz. Antes de entrar virou-se para trás e avistou um homem que do outro lado da avenida olhava em sua direção com a mão sob os olhos, protegendo-os do lusco-fusco do fim de tarde.